terça-feira, 13 de outubro de 2015

Cataclisma


Seu nome era Ana e ela desenhava.

Vivia em um cômodo sem saídas, que se resumia a quatro paredes brancas e um piso gelado. Não havia nada ali além dela mesma e de um modesto conjunto de pincéis e tintas.
A cada dia, ela despertava e pintava uma flor sobre a tinta alva da parede.
Não sabia o porquê daquela rotina e, para falar a verdade, estava além de seu alcance questioná-la. A tarefa que cumpria todos os dias não lhe parecia imposta. Era como se sempre houvesse estado ali. As tintas, as pétalas, as curvas, essas coisas eram parte dela e ela não conhecia vida além daqueles movimentos.
Nunca houvera um momento em que ela não estivesse ali, naquele lugar, pintando flores coloridas numa parede branca, e ela não tinha porque desejar que fosse diferente.
Molhava o pincel numa tinta laranja, examinava as cerdas embebidas pela cor viva, e, com movimentos sutis, traçava linhas onde antes houvera o vazio. As linhas mesclavam-se e surgia uma flor um tanto quanto parecida com a que ela desenhara no dia anterior, e ainda assim totalmente diferente.
Após admirar sua criação, ela limpava os pincéis, deitava-se no gélido chão e assim permanecia até adormecer.
Não se alimentava, não usava o banheiro, e teria ficado confusa diante de tais termos, pois não os conhecia e nem as necessidades que tinham o resto dos seres humanos associado a eles.
Um dia, no entanto, Ana acordou e viu que não estava mais sozinha. Havia, um pouco afastado dela, um homem deitado perto de outro kit de pintura.
A garota analisou-o por alguns instantes. Dentro dela pulsava algo que, se soubesse nomear, teria chamado de estranhamento.
Apesar do tal algo, ela se voltou aos próprios pertences, tomou o pincel em mãos e o mergulhou em tinta carmim.
Ana gostaria de perguntar ao homem de onde ele tinha vindo, quem ele era, como se chamava, mas articular palavras também era uma coisa que estava além de suas limitadas capacidades. Por isso ela desenhou uma flor, e se esforçou para que esta fosse o mais padronizada possível.
O homem chamava-se Paulo. Ela não se lembrava como, mas de repente sabia daquilo. Uma hora a informação não estava ali, e na outra já estava. Simples assim. Sem necessidade de questionamentos.
Algumas flores depois, Paulo era parte da rotina. Ana tinha conseguido assimilá-lo, e não se lembrava de um momento em que ele não houvesse estado ali. Eles não trocavam palavras, claro. Vez ou outra um olhar era disparado de um dos lados, mas nada daquilo tinha muito significado.
Ambos acordavam, pintavam as respectivas flores e se deitavam novamente.
Em seguida vieram Maria, Ricardo, Amélia, Tiago, Fernando, Bruna, Amanda, Cristina, Felipe, José, e uma infinidade de nomes que não vale a pena mencionar mas que eram, de alguma forma, todos do conhecimento da menina que havia sido a primeira a pousar naquele lugar. Era como se tivessem estado ali o tempo inteiro.
Ana acordou e havia várias partes de corpos alheios em contato com o seu próprio. Levantou-se e buscou o pincel e as tintas em meio à bagunça humana que era aquele cômodo. Quando finalmente os encontrou, molhou o pincel em tinta preta. Estava no centro do cômodo, longe da parede, à qual lançou um olhar determinado.
Conforme pôs-se a andar, os conterrâneos despertaram, levantaram-se e umedeceram seus pincéis. Ana virou à esquerda para se livrar de Felipe, mas lá estava Joana, outra barreira humana à sua travessia. Mais e mais pessoas estavam de pé a cada momento, e logo a garota se viu presa a um mar de corpos.
Tentou desvencilhar-se, olhos fixos na parede, com toda a força tentou abrir espaço, mas estava agarrada. Sentia outras peles roçando bruscamente sua própria, todos desesperados por cumprirem seu único objetivo diário, a maioria deles agarrados e sem perspectiva de conseguir.
Aquele estranhamento dentro de Ana cresceu e tornou-se desespero profundo. Ela estava aterrorizada, precisava, de alguma forma, fugir daquela situação. Olhou para cima.
Lá estava o céu azul, mas claro que ela não teria como chamá-lo assim, pois nunca o havia visto e nem conhecia aquele termo.
Ou será que conhecia?
Céu.
Subitamente a palavra brotou-lhe à mente.
A garota desafixou os olhos do céu por um momento e observou novamente os corpos que a pressionavam, voltando logo, entretanto, a encarar o que havia acima.
Então Ana deu um grito sonoro e gutural.
E o mundo inteiro fez-se em pedaços.

Caio Hoffmann

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Carta aos Vivos



Olá.
Sim, eu menti, isto não é uma carta. Até porque, ninguém mais escreve cartas hoje em dia, e elas possivelmente só são lembradas por aqueles que reclamam que ninguém mais as envia, mas eles mesmos não têm a disposição de fazê-lo.
Digamos que isso é um texto em que eu digo coisas que aparentemente são destinadas à população deste planeta chamado Terra, mas que no fim das contas são uma mensagem clara para mim mesmo: não seja um cuzão.
A primeira coisa, a coisa fundamental desse amontoado de linhas, é: não construa sua vida em cima de sentimentos negativos. Ódio. Rancor. Amargura. Arrependimento. Essas merdas vão estar presentes, e depois não mais e depois estarão de novo, mas a questão é não deixá-las ser a base para construir sua história. Deixe-as, no máximo, ser o vento que modela levemente o relevo da sua existência. A vida deve surgir a partir do amor, da esperança, do deslumbramento, que, apesar de não serem sempre felizes, são, em sua maioria, sentimentos positivos.
Tenha uma dose mínima de autoestima, seria o próximo ponto. Sei que é muito mais fácil se odiar, porque parece que todos te odeiam, sei que o mundo e os defeitos te esmagam o peito, mas se permita ter certo apreço pela pessoa que você é, e tenha segurança desse gostar. Quando você estiver na escuridão pescando defeitos, deixe boiar uma ou outra coisa boa sobre você. Tornará tudo mais fácil.
Não reproduza o ódio que recebe. Pessoas são vidas e têm uma história. Assim como você, elas choram e se odeiam (eu acho), mesmo que quando ninguém pode vê-las. O ciclo do desprezo precisa ser quebrado. Mesmo se estiver se sentindo um pedaço de merda, faça com que os outros sintam que importam para você. Não desconte neles a raiva que te lançaram.
Seja mais forte que seus demônios. Ria deles, faça piada, mas os enfrente, ponha-os pra correr. Não os deixe convencê-lo de que eles são merecedores da sua companhia. A ferro e fogo, reine sobre eles e mostre-lhes seu lugar. Lembre-se, todavia, de que eles estão ali e que nunca, efetivamente, te deixarão em paz.
Jamais use a mesóclise.
Faça as coisas. Arrisque-se. Experimente. Mostre amor a quem você ama, deixe as pessoas saberem o que você sente. Não seja um imbecil e espere que te leiam: anuncie-se em voz alta! Faça com que te notem, faça com que respeitem quem você é e o que você defende. Como isso será feito eu não sei, mas faça, amigo, porque de outra forma é difícil prosseguir.
Não se dê por vencido: lute!
Não simplesmente exista, mas viva!