terça-feira, 21 de outubro de 2014

Tudo

Tudo o que eu queria era alguém que verdadeiramente compreendesse, alguém que conseguisse me fazer acreditar que vai ficar tudo bem.
Tudo o que eu encontro é pena, condescência, sorrisos vazios, olhares cruzados, palavras de consolo infundadas.
Tudo o que eu queria era o intangível, o conforto esperado do futuro, e a simplicidade do passado.
Tudo o que eu encontro é o presente, inquebrável como uma pedra, tão agridoce que me brotam lágrimas nos olhos.
Tudo o que eu queria era satisfação.
Tudo o que eu encontro são expectativas.
Tudo o que eu queria era Alguém.
Tudo o que eu encontro são pessoas.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Está tudo lá



As pessoas costumam falar que nós descobrimos quem somos com o passar do tempo. Eu discordo. Pra mim, lá no fundo, nós sempre sabemos.

Nosso "eu verdadeiro", a princípio, não passa de uma pequena presença, escondida em algum canto longínquo de nós. Ele se esconde tão bem, na verdade, que nem nós mesmos notamos que está lá. Tornamo-nos, assim, o que nos dizem que devemos ser.

Mas, uma hora ou outra, essa pequena "presença" resolve sair de seu esconderijo.

Ela emerge nas horas mais inusitadas. Quando nos damos conta, estamos discordando de algo que sempre nos definiu, e nem sabemos de onde saiu aquele não. Abismados, enxotamos o pequeno e frágil "eu" para seu cantinho escuro, e prosseguimos sendo quem deveríamos.

O "eu", entretanto, não se aquieta. Começa a sair mais vezes, e de repente as tentativas de deixá-lo para escanteio não são mais tão simples assim. Ele é teimoso, discute, argumenta. E o que nós temos para confrontá-lo? Frases prontas, dogmas, senso comum?

No começo, ganhamos no grito. Quando o não-mais-tão-pequeno "eu" começa seu discurso estranhamente sedutor, logo berramos: "Volte lá pro seu canto escuro e pare de me encher de ideias malucas, seu diabinho!". Isso até funciona, exceto pelo fato de que ele não cabe mais tão bem no cantinho. Sua presença incomoda, e já não consegue passar despercebida como antes.

Em um certo momento, o já-grande-demais "eu" começa a ganhar as discussões. Dizemos: "Por que eu deveria te ouvir? Vou muito bem, obrigado, sem seguir seus conselhos", e ele replica: "Não se esqueça, meu amigo, de que eu vim de dentro de você. E essas suas tão maravilhosas ideias, de onde vieram?"

Nós, assim, nos livramos das convicções, da capacidade de ignorar, dos argumentos batidos, da voz que tanto berrava para que o que realmente somos, o que realmente queremos, não tivesse vez. E o "eu" torna-se eu, toma conta de nós. Ele cresce, agora livremente, e se transforma em algo lindo.

Admitimos então para nosso eu: "A vida é tão melhor com você no comando." E ele nos corrige: "Você não quis dizer 'comigo no comando'?"

O processo de conquista de nós sobre nós mesmos é lento e penoso, mas desde o começo está tudo lá.

No fundo, bem lá no fundo, nós sempre sabemos quem somos.

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Parte Integrante


Eu acordei me sentindo diferente aquela manhã.

A estranheza era tangível, e refletia-se até mesmo em meu reflexo no espelho. Minhas feições estavam com uma leveza tão peculiar. As olheiras haviam desaparecido como mágica e... Aquilo nos meus lábios era um sorriso espontâneo?

E então eu percebi a causa de tudo aquilo. Todos os meus receios, meus ressentimentos, minhas amarguras e dores haviam simplesmente desaparecido. Por mais que eu perscrutasse minha mente não conseguia achar nem uma pontinha de arrependimento ou um traço de insegurança sequer. Eu estava completamente preenchido por sentimentos agradáveis.

O que me intrigou a princípio foi como tudo aquilo havia desaparecido assim de repente. Será que eu havia combatido e expulsado meus demônios em algum momento enquanto estava inconsciente? Ou eles simplesmente tinham resolvido ir embora? A verdade é que não importava.

"Isso é ótimo", pensei comigo. Agora eu finalmente pararia de me agarrar àqueles sentimentos febris como um refém doentio sofrendo de Síndrome de Estocolmo. Estava livre do passado, o fantasma imutável, e agora poderia deixá-lo descansar em paz e construir um futuro saudável e uma consciência livre. Poderia finalmente parar de fingir que estava tudo bem quando na verdade estava nítido que eu estava péssimo, e meus amigos não precisariam mais ouvir minhas lamúrias tediosas.

Mas espere um pouco aí. Então quer dizer que daquele dia em diante eu não poderia mais passar longos períodos reunido com os amigos e criticando a vida? Não sofreria mais de insegurança, não me arrependeria mais de nada, seria inabalável? Isso era terrível. Quem seria eu, o sr. Está-Tudo-Bem no meio de um mar de pessoas frustradas? Seria um ser marginalizado, um pobre coitado otimista. E o pior é que eu nem conseguiria me sentir mal sobre isso.

Acordei assustado.

"Graças a Deus", pensei, "foi só um pesadelo horrível."

Mas será realmente? No mesmo instante pulei da cama e corri até o espelho para verificar.

E, para meu alívio, estava tudo lá.

Eu era humano outra vez.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

"Virando" homem



Cheguei ao quarto desamparado, desnorteado. De alguma forma, consegui chegar até a cama, e lá me recostei.

E só deixei rolarem as lágrimas.

Tudo ia tão bem. Bem demais, não? Naquele momento, senti-me um idiota por ter acreditado por um segundo sequer que ele havia evoluído como pessoa. Que tínhamos passado do ponto onde ele me fazia chegar àquele estado catatônico. Bom, pelo menos eu estava sozinho agora. Podia terminar de esvaziar meus dutos lacrimais em paz.

Então ele chegou.

Ouvi seus passos pesados e desordenados antes de ter coragem para encará-lo. Eu tentava conter de toda forma as lágrimas, mas elas não cessavam. Ó, Céus, por que elas não cessavam?!

Ele arrastava-se até onde eu jazia com uma calma amedrontadora. Imaginei seu cérebro enevoado tentando interpretar a cena que lhe era apresentada.

Ele chegou bem perto e parou, encarando-me. Em seu olhar, eu via todo o desprezo que ele sempre teve por mim, por quem eu era, por quem eu havia me tornado, todas essas coisas que ele sempre deixava escapar de maneira tão sutil. Agora, lá estavam elas, escancaradas em sua expressão embriagada. Tudo graças ao maravilhoso líquido louro, que opera milagres inimagináveis. Tudo graças ao maldito líquido que enchera minha vida de momentos como aquele.

E as lágrimas não cessavam.

- Para de chorar. - ele disse, firme. Firmeza essa, aliás, que nunca acompanhava seus discursos quando estava sóbrio. - Para de chorar e vira homem.

Mas as lágrimas não cessavam.

Ele olhou ainda mais fundo para mim, como se aquilo fosse possível, e parecia examinar minha alma procurando alguma razão para eu ainda estar chorando, se ele já havia me mandado parar. Afinal de contas, ele era minha autoridade suprema, a quem eu devia respeito e obediência. Porra, nem como sarcasmo essa justificativa funciona.

- Vira homem. - ele repetiu, e por um momento pensei que o álcool havia varrido de sua mente o resto do vocabulário que ele conhecia.

Então eu fiz o que tinha de ser feito, o que eu sempre fazia. Encarei-o de volta, perguntando-me se havia firmeza em meu olhar, em algum lugar atrás daquela cortina lacrimosa. Encarei-o, e cuspi a verdade nele.

- Eu tenho medo de você.

Suas mãos fecharam-se em punhos, e eu soube que o havia afetado. Claro que havia. Eu já sabia onde mirar. Ele virou-se e saiu, tropeçando, e eu novamente desabei na cama.

Assim, decidi que se tornar-me homem significava transformar-me nele, se aquilo significava atingir todos à minha volta com uma personalidade louca e explosiva e, acima de tudo, não ter arrependimentos, nem valia a pena a dor da metamorfose.

E as lágrimas não cessavam.

sábado, 10 de maio de 2014

O Encarregado



Que tal fazermos uma aposta? Você topa? Tudo bem, lá vai. Eu aposto com você que Deus tem um funcionário especialmente encarregado de destruir a minha vida.

Pode parecer uma coisa meio maluca a se dizer, mas é a única teoria que faz sentido. Porque realmente não existe explicação lógica para, toda vez que as coisas parecem ir bem, algo acontecer e simplesmente mudar tudo, fazer tudo dar errado da pior maneira possível.

Eu até imagino como ele é, o Encarregado. Um homem de uns dois metros de altura, cabelos negros bem cortados, um rosto com uma expressão perigosa, como se dissesse que ele é o tipo de pessoa que trabalha fodendo a vida de alguém. Ah, e ele usa terno branco e acha super elegante. Mas não é, acredite.

Ele passa o dia inteiro num escritório, sentado diante de uma grande tela através da qual ele analisa e modifica as variáveis da minha existência para que eu me iluda e depois seja jogado de um precipício.

Você deve estar se perguntando, assim como eu, porque Deus manteria um funcionário simplesmente para brincar com meu destino. Justo eu, uma pessoa tão sem importância. Eu não sei a resposta para essa pergunta, mas algo me diz que é simplesmente muito divertido rir da minha cara.

Tudo o que eu sei é que, se algum dia eu topar com esse cara, ou descobrir onde ele mora, vou torturá-lo tanto que, no fim das contas, ele vai estar enviando um currículo para o inferno para não manter o emprego atual. Portanto, se você for essa pessoa e estiver lendo isso, tome cuidado. Eu posso já estar a caminho.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

O Primeiro de Muitos


I

- Preciso te dizer uma coisa. - confessou a garota.

Aquela simples frase sussurrada ao vento quebrou o clima tranquilo que os dois vivenciavam naquela tarde de sábado.

Estavam deitados na grama, um ao lado do outro, observando as delicadas nuvens emolduradas no céu azul e sentindo o vento que passava por entre seus corpos estendidos, tentando encontrar o caminho para continuar sua jornada sem fim pelo mundo.

Ela não queria estragar aquele momento, mas precisava. Simplesmente não iria conseguir ficar mais um minuto sequer ao lado daquele rapaz sem contar-lhe o que há tanto vinha escondendo a duras penas.
Ele virou seu rosto em direção ao dela, e seus olhares se conectaram. Ele demorou um instante para assimilar a frase, mas em seguida assentiu. Ergueu seu tronco da grama, e assim ela também fez, de modo que ficaram sentados frente a frente na imensidão verdejante onde se encontravam.

Ela ficou em silêncio por um momento. Tinha lhe custado tanto levantar o assunto, e agora não sabia se queria prosseguir com aquela revelação. Talvez, se ela o encarasse por muito tempo, ele se esquecesse de que ela deveria dizer algo.

- Diga logo, Ana! – implorou ele, pousando sua mão esquerda sobre a coxa esquerda dela. – Você sabe como sou curioso!

Ana reuniu toda coragem que existia nos cantos mais longínquos de seu ser, e rompeu a inércia que a insegurança lhe impunha.

- Eu... – ela engoliu em seco – Olha, Tiago, eu não posso mais esconder isso de você. Eu juro que eu não queria ter essa conversa, mas já não consigo suportar o peso do silêncio. Toda vez que você está por perto, toda vez que me toca, toda vez que eu penso em você, eu sinto uma coisa muito estranha. Eu nunca senti isso por ninguém, nem sabia que existia uma sensação tão profunda, para ser sincera. É uma coisa tão boa, tão... Ah, não sei. Não sei descrever. Eu sei que você me faz bem como ninguém nunca me fez.

Ela parou por um momento, e analisou a reação dele. Seu rosto parecia continuar impassível. Ele olhava fixamente para ela, inexpressivo. E ela se arrependeu daquilo tudo. Soube que tinha perdido um amigo. Sentiu uma lágrima escorrer por seu rosto. Por que fui tão tola de achar que ele sentiria o mesmo?

- Eu não queria que fosse assim, Tiago! Não queria. Mas não foi algo que eu escolhi sentir. Simplesmente aconteceu. Eu sei que somos só amigos, sei que não deveria estar dizendo nada disso, mas eu não iria suportar. Se você não me quiser mais por perto, se você estiver me odiando agora, eu vou entender. Mas eu precisava dizer isso tudo. Eu te amo, Tiago.

Ela esperou que ele começasse a gritar, que a xingasse, que lhe perguntasse que tipo de pessoa era ela, que não conseguia manter uma relação de amizade com alguém do sexo oposto sem ansiar por algo mais. Mas ele não fez nada disso. Tiago sorriu.

- Eu nem sei o que dizer, Ana. – ele falou, e sua voz estava carregada de emoção – A verdade é que, durante todo esse dia maravilhoso que estamos tendo, eu venho procurando uma forma de te dizer o que você acabou de me contar. O que eu sinto por você vai além do amor. Não há palavra na nossa língua que descreva essa sensação. Você é simplesmente a personificação da minha definição de perfeito. Eu não só te quero por perto de mim. Quero minha alma junto da sua, para sempre.

O beijo foi tão natural, tão instintivo, que quando eles perceberam já estava acontecendo. Ela pulou sobre ele, e os dois caíram na grama, mas não pararam de se beijar. Não queriam parar. Nunca. A partir daquele instante, não poderiam mais existir separados. Suas almas tinham se unido.

Aquele beijo seria o primeiro de muitos que ainda estavam por vir.

II

- Eu ganhei! Eu ganhei! – Marcos gritava a plenos pulmões ao ultrapassar a linha de chegada improvisada, feita de chinelos.

O garoto parou e estendeu os braços para o céu, comemorando, só para ser derrubado no chão pelo amigo logo em seguida. Caíram os dois na grama, rindo.

Marcos olhou para o amigo, e percebeu que Lucas o estava olhando daquele jeito estranho outra vez.
- Preciso te dizer uma coisa. – falou Lucas, ainda ofegante da corrida.

Marcos franziu a testa, percebendo o jeito inquieto do amigo.

- O que foi, cara? Aconteceu alguma coisa?

Lucas tentou parar de tremer, mas não conseguiu. Suas frases seguintes iriam definir o futuro da amizade dos dois. Ele tem que entender. Ele vai entender.

- Marcos, o que eu vou te dizer é muito complicado, mas só te peço calma e compreensão. Eu não queria estar tendo essa conversa, mas infelizmente não posso mais continuar sofrendo desse jeito. A verdade é que eu sinto algo por você. Algo que vai além da amizade. Quando você está por perto, eu fico nervoso, inseguro. Quando você sorri para mim, ah... Eu quase derreto por dentro. Eu sei que isso é bizarro, sei que é errado. Mas é algo que eu não consigo controlar. Nunca senti isso por nenhum cara antes. Eu não espero que você sinta o mesmo, sei que não, mas eu precisava te dizer. Não aguentava mais esconder isso de você. Não aguentava mais agir estranho quando perto de você, e não poder dar nenhuma explicação.

Marcos não disse nada. Só continuou a encarar o amigo, impassível. Será que isso é o que as pessoas chamavam de estado de choque? , Lucas se perguntou.

- Apesar de tudo isso, tenho certeza de que se você me entender e for paciente comigo, podemos continuar a ser bons amigos. – Lucas continuou, diante do silêncio do outro. – Eu sei controlar o que sinto. Só não quero perder sua amizade, nem sofrer como estava sofrendo: em silêncio.

Marcos continuou a encará-lo. Demorou alguns instantes, mas enfim seu rosto assumiu uma expressão. Não de compreensão, nem de confusão.

De nojo.
- Você tá brincando comigo, não é? – ele perguntou, incrédulo – Isso só pode ser uma porra de uma brincadeira!

Ele pegou Lucas pela camisa e ergueu os dois do gramado. Marcos olhou bem fundo nos olhos do amigo, perfurando-o com o mais puro ódio.

- Você. Logo você. Meu melhor amigo. A pessoa com quem eu sempre podia contar, pra todas as horas. Eu te respeitava, te admirava. Você era um exemplo de vida pra mim. Todos aqueles dias, todas aquelas noites que passamos compartilhando nossas experiências, nossos medos. Eu achava que íamos ser amigos pro resto da vida. E agora isso. Depois de todo esse tempo, eu descubro que você É A PORRA DE UM VIADINHO DE MERDA!

Ele atirou Lucas no chão, e o garoto caiu, desnorteado. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Acima dele, pairava um Marcos cego pela raiva.

- Calma, Marcos. Calma. Eu sei que é difícil, mas ainda podemos ser amigos. – Lucas soluçou.
O outro deu uma risada debochada.

- Amigos?! – ele berrou, apontando um dedo acusador para Lucas – Você é doente! É a escória! Pessoas como você deveriam morrer! Como posso ser amigo de alguém como você? De uma bicha? Você não merece nem estar vivo!

E ele o chutou. Lucas contraiu-se, sentindo a dor do chute e, acima de tudo, a dor das palavras. Aquele que até poucos segundos fora seu melhor amigo agora dizia que ele não era digno de vida. E talvez não seja mesmo, pensou.

- Agora levanta, seu merda.

Lucas continuou imóvel.

- LEVANTA!

Marcos agarrou-o pelos ombros e o pôs de pé. Lucas conseguiu focalizar seu rosto vermelho de raiva, desgosto, desprezo.

E só pensava: Eu mereço isso. As palavras. O pontapé. Eu sou a escória.

Ele só teve tempo de ver o punho de Marcos em movimento antes de um soco acertar-lhe o queixo. Lucas voou por um minuto, e então aterrissou na grama novamente.

- Se você vier falar comigo de novo, se ao menos me olhar outra vez, vou fazer muito pior. – Marcos ameaçou.

Dito isso, virou-se e foi embora, deixando Lucas só, estirado na grama, lamentando sua existência. O sol incidia sobre ele, refletindo a dor e a desgraça.

Aquele soco seria o primeiro de muitos que ainda estavam por vir.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Ao bando



Estou rodeado por corvos.

Venho notando isso ultimamente. No princípio achei que estivesse alucinando. "Talvez eu esteja dormindo pouco", pensei. Mas agora eu tenho certeza. Eles estão em todos os lugares, me perseguem o dia inteiro. E agora não consigo mais deixar de enxergá-los.

Onde antes eu via amigos, parentes e pedestres, hoje vejo corvos. Vejo aves de pele negra, com seus bicos pontiagudos e olhos cheios de malícia, ansiando por me atacar ao primeiro sinal da minha desgraça. Eles querem apontar e rir, eu sei que querem. Mal podem esperar para me ridicularizar, me apontar os erros, criticar meu primeiro desvio.

Criticam como eu falo, o que eu ouço, o que assisto, com quem converso, como me visto, o que decido, o que deixo de decidir. Eles analisam quem eu sou e me dizem, com o peito estufado, que eu sou de maneira errada. Querem me culpar pelos meus erros e acertos, e por seus próprios também.

Aos corvos que me perseguem, um recado: quem se alimenta da podridão acaba apodrecendo.

E aliás, onde está escrito que eu tenho que ser perfeito?

terça-feira, 6 de maio de 2014

Platônico



Você é parte essencial da minha vida. Isso é uma parcela muito grande, sabia? Você permeia meu eu consciente, e também meus sonhos. Você passeia por meus bronquíolos junto com o ar que eu respiro. Parece doentio, eu sei, mas é a verdade. Não há motivo para tanto, também sei disso, mas certas coisas realmente acontecem sem razão, sem pretexto.

Sim, eu te observo quando você não está olhando. Observo cada aspecto da sua vida que se faz passível de observação, na ânsia por saber mais e mais sobre você. Apesar disso, só consigo enxergar as qualidades. Os defeitos estão lá, obviamente, estampados no seu rosto, nas suas atitudes, mas quem seria louco de pôr os pés no chão quando se pode passear pelas nuvens?

Como tolo que sou, obviamente alimento a esperança de que você um dia venha a me notar, venha a me ver como mais que um mísero figurante na sua vida de musa idealizada. Mas isso não aconteceria nem que o mar por um instante passasse a ser feito de água achocolatada. Mesmo se Deus, Alá, Buda, Poseidon e Túpac Amaru descerem de seus leitos divinos todos juntos e lhe fizerem a grande revelação de que eu existo, nem assim você perceberia.

E assim eu sigo a vida, iludindo-me, porque é mais fácil que encarar a verdade. Sigo assim, pois é mais simples que revelar-lhe minha presença e meus singelos sentimentos. Até porque, já repassei a cena na minha cabeça incontáveis vezes, e por isso sei muito bem que, após ouvir o quanto eu te amo, você olhará bem em meus olhos cheios de paixão, abrirá seus lábios angelicais com delicadeza ímpar, e responderá:

“Foda-se.”

domingo, 4 de maio de 2014

Quando...



Quando ninguém quiser escutá-lo, fale sozinho.
Quando a vida estiver muito corrida, pare e respire fundo.
Quando todos te odiarem, ame-se.
Quando o mundo estiver muito escuro, acenda uma luz.
Quando todos estiverem fugindo da chuva, pare para senti-la.
Quando o fardo for pesado demais, simplesmente não o carregue.
Quando a melancolia se aproximar de você, abrace-a.
Quando a melancolia transformar-se em dor, enxote-a.
Quando lhe atacarem com pedras, ataque-os com a verdade.
Quando lhe chamarem de louco, alegre-se, pois você está no caminho certo.

sábado, 26 de abril de 2014

Antes de Dormir (Little Talks)


- E você, Tiago?
O homem, que finalmente havia conseguido concentrar-se tanto na cor das ervilhas a fim de não prestar mais atenção as conversas patéticas de seus amigos, foi puxado de volta à realidade ao som de seu nome.
- Que tem eu, Clara?
- Não está prestando a mínima atenção, não é? - ela disse com uma voz ácida seguida por uma risadinha - Estamos dizendo qual a última coisa cada um de nós pensa antes de dormir, todas as noites. Eu, por exemplo, sempre penso no Francisco, como já disse.
Ela apertou a mão do namorado, que sentava ao seu lado com um sorriso exagerado no rosto, ostentando como sentia-se orgulhoso daquele relacionamento ridículo.
- E você, Tiago, no que você pensa? - Clara completou.
Tiago a encarou calmamente enquanto mastigava as últimas ervilhas.
-No que eu penso?
Ele largou os talheres no prato e respondeu, apático:
- Eu penso em como a minha vida é miserável. No quão infeliz eu sou, cercado de pessoas e situações idiotas, rodeado por um mundo superficial e construído com base em mentiras. Penso que no dia seguinte terei que acordar cedo, sendo que o que eu mais quero é dormir mais, sair de casa e trabalhar até a exaustão extrema para garantir a minha sobrevivência nessa sociedade hipócrita. E que, após essas maravilhosas horas de trabalho, vou me encontrar com vocês, queridos amigos, e durante horas fingir que participo de suas conversas entediantes. Terei que fingir que me importo com seus problemas imbecis, e concordar com o fato de que vocês são tão injustiçados e têm uma vida tão triste, e que mereciam melhor. Terei que fingir que me interessa saber que é ou deixou de ser a namorada do cara que mora do lado da sua casa, ou o que você ouviu seu chefe conversando com a secretária. Depois me despedirei, voltarei para casa, e novamente irei me deitar e pensar sobre como o meu dia foi um dia perdido, e em como o próximo também será. E eu me odeio, tenho nojo de mim. Sim, nojo. Tenho nojo de mim mesmo por suportar essa mesma vida miserável, todos os dias da minha vida, e não fazer nada a respeito a não ser remoer e lamentar. Então eu espero calmamente até o ódio e a angústia se cansarem de mim e irem embora, para que eu possa dormir e continuar passivamente minha vida de merda.
O silêncio espalhou-se pela mesa. Todos estavam com os olhos arregalados. Francisco parecia um fantasma de tão pálido. O único relaxado era Tiago, que calmamente apontou para o prato de Clara e perguntou:
- Você vai comer essas ervilhas?

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Ansiedade


A capacidade de raciocínio dos seres humanos gerou coisas magníficas, e outras nem tanto. Um exemplo de sentimento que só complica a vida da humanidade é a ansiedade. Mas como podemos definir essa sensação tão estranha é incômoda?

É uma inquietação, uma pertubação, uma praga. É calcular o futuro nos mínimos detalhes, imaginar as piores e melhores possibilidades, e ter que esperar a droga do tempo passar para descobrir qual se tornará realidade.

Ser ansioso é viver de forma irrequieta. É não se conformar com o fato de a linha do tempo ser tão linear, tão bem dividida entre o passado, o presente, e o futuro, esse último que parece uma ilusão, um oásis, um período utópico, enquanto aguardamos por sua chegada. A ansiedade é a vontade incontrolável de ser capaz de torcer a linha do tempo de forma a poder transitar facilmente por ela, e nunca mais precisar aguardar o inesperado.

A única finalidade real da ansiedade é brincar com nossa mente, transformar nossos neurônios em frangalhos, fazer-nos passar noites em claro pensando no dia seguinte. Mas como nos livramos dessa maldição? Há alguma simpatia, algum ritual obscuro a ser realizado para que possamos nos contentar em ser meros seres humanos que vivem a vida de forma linear?

Ah, quem me dera ter a resposta. Na verdade, quem me dera ter qualquer resposta a uma pergunta pertinente sobre a vida. O que me resta a fazer é esperar ansiosamente por respostas que nunca virão.