quinta-feira, 19 de outubro de 2017

5. Desafie a separação passado-presente-futuro

Estamos nessa festa, eu e você, mas tudo o que consigo pensar é numa outra festa, pouco menos de dois anos atrás, quando eu ainda não tinha tirado um tempo para estar só comigo mesmo. Aquele foi um dos melhores dias da minha vida, a noite em que estivemos pela primeira vez juntos do jeito que ficam as pessoas que não querem nunca estar longe. Eu estava completamente deslumbrado pela pessoa maravilhosa que você é - ainda estou, mas, hoje, quando penso nisso, meu coração dói ao lembrar que eu tive de abrir mão de nós dois para cuidar de mim.
Aquela noite foi quando aconteceu também nossa primeira briga. Você tinha ido comprar bebida no bar e, sempre na ânsia de independência a qualquer custo, não avisou que ia e que poderia demorar. De repente, estavam todos procurando por você. Quando eu finalmente te achei, te repreendi por não ter avisado, afinal, o lugar estava cheio e a pista e o bar ficavam em andares diferentes. Você me disse para nunca mais te dar lição de moral e falou ainda que era desnecessário avisar nesses casos. Acho que cumpri seu pedido no tempo que se seguiu e pretendo continuar a cumpri-lo. Nos meses seguintes, no entanto, não deixei de requisitar sua presença quando você sumia sem avisar e, com o tempo, você passou a tomar mais cuidado com a ausência desmedida. Como aquecia meu coração o fato de estarmos juntos.
Esta noite, no entanto, eu não sei como agir, estando nós dois aqui, na mesma festa, com o mesmo grupo de amigos, e tentando também os dois agir como amigos. Não sei se posso sentir sua ausência desmedida. Com certeza sei que não posso pedir sua atenção. Acho que vai doer não poder. No fim das contas, eu não sei como agir, porque, apesar de você não ser mais meu namorado, no fundo meu coração ainda não aceitou isso. No fundo, eu ainda quero te puxar para perto de mim e nunca mais te soltar, como fazem as pessoas que não querem nunca estar longe.
Hoje, depois de dois dias, eu guardei o porta-retrato que você me deu com a nossa foto dentro do guarda-roupa. Não doeu muito na hora, eu estava sonolento, mas aquele momento, aquele ato, grudou em mim e eu não consigo mais terminá-lo na minha cabeça como ele terminou na vida real. Hoje você veio me tranquilizar, dizendo que não tinha problema eu não ter ainda devolvido suas coisas que estão na minha casa. Eu não tive forças de juntar tudo aquilo, todos aqueles pedaços de você que eu ainda posso ter na minha intimidade, e dizer adeus. Eu não quero, eu não posso, eu não consigo aceitar que acabou. Ah, meu Deus, o que vai ser da minha vida. Eu escolhi isso, mas não consigo lidar com a minha própria escolha porque você é a melhor coisa que já me aconteceu na vida. Tinha digitado que você foi a melhor coisa, mas não consegui deixar ali aquela palavra. Passei a abominar o pretérito perfeito e acabado.
A questão é que eu acho que eu tenho mais certeza de que meu lugar é do seu lado do que de que meu lugar é comigo mesmo. Me sinto melhor com você do que comigo mesmo. Eu não sei me proteger. Eu não sei me consolar. Eu não sei fazer chão debaixo dos meus próprios pés. Eu não sei se eu sei mais quem eu sou e não sei se tenho mais vontade de descobrir. E isso está simplesmente errado. Eu preciso ter vontade de mim e preciso saber me defender. Eu preciso me apaixonar por mim mesmo e pelo meu próprio espaço. Eu preciso aprender a encontrar conforto em mim mesmo. Então eu tive que me forçar a escolher a mim mesmo. Todos os dias eu me arrependo. Minha alma dói. Eu odeio o pretérito perfeito. Só de pensar no futuro do presente eu fico tão ansioso que mal consigo respirar. Acima disso tudo, eu odeio a mim mesmo por não estar bem o suficiente para continuar ao seu lado.
Eu espero que um dia eu consiga me perdoar. Espero que você me perdoe também, mas o perdão de que eu mais preciso é o meu próprio. Eu não posso pensar no futuro, não posso pensar em quando eu estiver bem de novo, em estar de novo com você, porque, se eu pensar, esse pensamento vai me consumir. Já o fez algumas vezes, mas eu o estou prendendo com firmeza. Além de tudo, não posso pensar nisso porque eu quero que você seja muito feliz. Eu quero que você encontre toda a felicidade em você mesmo e também em outras pessoas que estejam bem para te proporcionar isso. Então eu não vou te amarrar no meu pensamento e nem no meu coração. Eu estou destruído, mas essa pilha de destroços está te deixando ir para onde nenhum mal possa te alcançar. Eu espero que um dia eu encontre um lugar onde eu também esteja acima de todo mal. E aí, do topo das minhas nuvens, posso chamar você no topo das suas e perguntar o que está se passando na sua vida - mas não
Não.
não posso pensar no futuro. Apesar de o presente ser uma construção, ele tem que ser minha única casa por agora. Só assim eu vou conseguir encontrar a mim mesmo de novo.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

4. Descreva uma técnica familiar de agricultura


Olhei para o solo através do mesmo olhar de semanas atrás. Dessa vez, no entanto, a ocasião era diferente, pois eu estava ali para colher, não para plantar.
            Não havia jeito de saber com certeza que era chegada a hora, mas a ponta de alguma coisa aparecia já na terra úmida a uma altura que eu sentia ser suficiente. Sim, eu sentia e assim sabia. Pelo menos era desse modo que deveria ser feito segundo a receita que minha mãe me passara. Portanto, por mais que eu nunca tivesse sabido confiar nos meus sentimentos, era isso o que eu tinha que fazer agora. E eu sentia que já era a hora.
            A coisa que se projetava para fora do solo era iluminada pelo sol forte do meio dia, sol este que também me castigava as costas. Curvei-me e me agachei para pegar aquela protuberância. Era frio ao toque, o produto do meu trabalho. Puxei. Nem um movimento. Mais forte. E ainda nada. Peguei a coisa com as duas mãos. Puxei. Ela saiu mais um pouco da terra, revolvendo o marrom úmido durante seu percurso. Respirei. Puxei. Respirei.
            Como era difícil aquela merda. Fiz força por cerca de meia hora antes que ficasse visível todo um braço para fora da terra. Eu já suava bastante àquela altura. Também, pudera. Nunca tinha colhido nada na vida. Para tudo existe uma primeira vez – ou pelo menos para tudo que se coloca no nosso caminho.
            Eu plantara aquilo nesse solo fértil porque se havia colocado diante de mim a necessidade. Ela bateu em minha porta, num dia chuvoso, encharcada, com olhos de quem dizia que chegara a hora de fazer algo que eu não sabia que deveria fazer até olhá-los. E eu soube. Como se nunca estivesse estado ali e então sempre estivesse estado.
            Corri para folhear os antigos livros manuscritos que meus pais usaram e complementaram com suas próprias anotações em tempos outros, procurando pela página que me ajudaria naquela tarefa específica. As instruções eram bem vagas, como todas as que te dão depois de certa idade. Grande parte do processo eu tive que deduzir, que sentir. Como eu odiava aquilo de ter meus próprios sentimentos como guia. Segui em frente, todavia. Pus o livro debaixo de um braço, a necessidade debaixo do outro, e vim até esse lugar que dizem ter o solo fértil para quem quer plantar tempos novos.
            Limpei o suor da testa e puxei mais um pouco. Aquela parte seria difícil. Meu pai dizia que não era força e sim jeito, mas eu nunca tive paciência e ele também não. Não sei de onde vinha esse conselho descabido, aliás, saído da boca de quem nunca soube a justa medida de nada. Reuni toda a força e todo jeito que pensava ter e puxei. A cabeça pulou para fora da terra de um jeito quase cômico. Aproveitei o impulso e comecei a descobrir o tronco, bem mais fortalecido que o meu próprio. Quando já havia alguma parte dele para fora, pude passar meus braços à sua volta e puxá-lo com força. O resto do tronco e as pernas saíram numa velocidade grande com alguns puxões e logo fomos nós dois arremessados na terra.
            Aquele fim um pouco mais súbito do que eu esperava me pegou de surpresa, mas aos poucos se assentou em mim o sentimento de que tinha acabado. Abracei a coisa que eu tirara da terra e comecei a chorar como nunca chorara na vida. Então me levantei e olhei para o corpo estirado no solo. Era o meu corpo, só que diferente. Mais resistente. Além disso, estava cheio da terra de onde estava enterrado, milhares de pontos que haviam grudado nele enquanto eu o tirava de lá. Olhei para o meu rosto recém-saído da terra. Esperava que ele pudesse olhar o mundo e saber o que via, diferente de mim.
            Minha mãe tinha adquirido para si a habilidade de se desenterrar do chão todas as manhãs. Tinha força sobre-humana. Meu pai tinha desenvolvido a técnica de ir chorar por cima de si mesmo durante a madrugada, para que ninguém pudesse vê-lo. Eu não seguia aquela técnica, chorando sempre à vista de todos e me expondo sempre ao ridículo. Não conseguia fazer de outra forma. Meus avós conseguiram estabelecer diretrizes poucas para ler os sentimentos e saber quando era hora de colher. Alguém que eu não conseguira identificar adicionara, em caligrafia difícil de ler, a dica de puxar o tronco para que o corpo saísse mais depressa. Todas aquelas pessoas trabalharam duro e comprimiram os resultados de seus esforços numa página daquele livro que me foi passado e que, mesmo sendo produto de tanto suor, fora-me de utilidade pequena para a tarefa de me plantar e me colher quando tal necessidade apareceu.
            Mesmo assim, eu consegui. Contrariando todos os agouros, todos eles maus, triunfei. Deixei a vida me enterrar e então me pus para fora da terra, um novo corpo melhorado para encarar aquilo que antes eu não estava pronto para ter diante de mim. Aquele sim era um momento para que eu sentisse orgulho de mim mesmo. E eu senti.
            Senti orgulho e deixei – dessa vez sem culpa ou ódio – que aquele sentimento me guiasse para dentro do corpo que eu tinha cultivado com tanto esforço, na esperança de dias melhores ou pelo menos reações melhores a dias tão ruins quanto os anteriores.
            Aquele novo corpo falharia, é claro, em algum momento. Mas então a necessidade bateria de novo à minha porta e eu já saberia o que fazer, tendo por guias meu coração e minha própria experiência, além do conhecimento deixado para mim por todos aqueles que tentaram antes cultivar um corpo à altura de seu espírito.