quarta-feira, 17 de outubro de 2018

minha escrita está quebrada e não quero consertá-la

e se eu tirar todas as minhas frases clichês
os paradoxos melosos dos quais não me canso
os maneirismos horrorosos que desenvolvi
as metáforas risíveis
o que sobra?

nada que faça o meu coração queimar de vontade de colocar palavra no papel.

autocoroação

dizem que os escritores de verdade conseguem sair de si mesmos
universalizar a dor

eu estou tão fora de mim que me enterrei em mim mesmo
passo todo o tempo em mim me projetando nas outras pessoas
tentando decifrar o mundo escondido no meu canto

eu nunca vou conseguir abandonar o eu
embora para mim ele signifique tão pouco.
essa coisa tão maltratada e negligenciada por ela mesma
é inegavelmente para mim fonte de apego.

e na dinâmica de estar dentro e fora ao mesmo tempo
a escrita é um lugar confortável
onde eu posso usar os vales do meu corpo como abrigo
fazer minha pele de edredom e me sentir em casa
sem me preocupar se estou dentro ou fora
se estou agradando
ou se estou prestes a explodir.

esses lindos fogos de artifício,
embora eu não possa ter certeza de onde estão
gosto de acreditar que eles moram dentro de mim.

estamos juntos, mas estamos fodidos

minha bolha só tem crescido
está inchada
do que adianta se ela vai explodir
e vamos todos juntos para o mesmo buraco

uma fresta, um raio de sol

eu acho que posso virar o mundo do avesso se tentar com todas as minhas forças. acho que sou capaz de despejar palavras até algo fazer sentido, ou até nada precisar significar alguma coisa.
acho que existe amor na vida, amor a mim mesmo. deve existir algo de bom. a agonia é real e eu não vou mentir dizendo que sou um poço de amor próprio. talvez uma poça.

acredito que eu seja capaz de ser inundado de amor.
eu acho que sou capaz de me cultivar, de colher dias melhores, de me desfazer das minhas ilusões de controle até que respirar se torne fácil.
eu mereço tempo e me darei o tempo que mereço. eu mereço a felicidade, apesar de não fazer ideia de onde encontrá-la.
vou até o fim do mundo buscar
e um dia

que essa frase seja a linha do horizonte
que me faz ir em direção a mim mesmo
me faz querer me encontrar
mesmo estando todos nós irremediavelmente perdidos.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

inventário de lamentos

todos os desdobramentos tristes
de pessoas e nações que acreditaram
que resolveriam algum tipo de problema
puxando o gatilho de uma arma

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

outro tipo de comunicação

eu espero que você consiga escutar, mesmo de toda essa distância, quando eu grito sem fazer som.
tenho me estendido sem me mover, tentando achar uma forma de dizer que meu coração mora também um pouco aí dentro.
mais que esperar, eu sinto
que de alguma forma você consegue me ouvir e sentir a vibração do que eu nunca disse.
esse talvez intuitivo acaba por me envolver com uma certeza emocional que me deixa aquecido.

eu espero que você consiga se enxergar nas minhas linhas 
acomodar-se entre as palavras que tiveram por molde a ideia que eu tenho de você
e perceber como tudo se encaixa perfeitamente.

terça-feira, 21 de agosto de 2018

manifesto bobo

a nossa vida não precisa ser só despedidas e não-ditos
a gente pode não ir embora às vezes
você pode recostar a cabeça no meu ombro
e se sentir seguro
a gente pode ter carinho um com o outro sem se sentir idiota

essa pressa fria parece racional
mas ela está nos matando
vamos ser mais espertos que a razão
e escolher ficar
de vez em quando

sábado, 11 de agosto de 2018

mea-culpa

o cinza cai bem na minha pele egoísta. sim, eu visto a carapuça e ela é cinza.
o mundo pode explodir em todas as vezes em que já admiti minha própria culpa e ainda assim nenhum progresso.
a solução é ir além de vestir a carapuça e passar a vesti-la com um misto de orgulho e vergonha. é fazer dela, além de peça de vestimenta, algo de verdade.
parar de mentir ao dizer a verdade e começar a ser sincero no que importa.
não conheço ainda o rito que transforma palavras em ações. o que farei com as palavras é parar de dizê-las, engoli-las e esperar que dentro de mim façam algum tipo de mágica.

sábado, 21 de julho de 2018

sonhei com o futuro e ele me deu um soco na cara

importante remover todas as impurezas
apagar os não-lugares
esquecer as interrogações existenciais que não sejam engraçadinhas
viver conforme e queimar o resto.

lavei minha personalidade e me tornei algo irreal
pensando em atingir quem está do outro lado;
em massagear meu próprio enorme ego
minha vida filtrada é colocada em exibição
para o bem de quem

cada vez mais perto de entender o mundo
eu não reconheço mais a mim mesmo.
estamos chegando ao final da linha
que me estrangula o pescoço
e qual a recompensa do progresso
senão viver sufocado por mais mediações
do que qualquer ser vivo é capaz de suportar


sexta-feira, 13 de julho de 2018

eye contact

nos previnem sobre relacionamentos tóxicos
esquecem de avisar isso pros bebês na hora em que nascem
os pais veem o bebê e choram de felicidade
o bebê vê os pais e grita de desespero
por causa da existência
e do abuso psicológico
que vem pela frente
abuso que os cultos costumam chamar de educação

terça-feira, 26 de junho de 2018

tudo uma hora se encontra

acho que o corpo é um tema frequente porque o sofrimento também é físico.
a mente é ignorada porque não pode ser explicada.
a alma não existe porque não pode, porque existir é razão e alma é.

os três se encontram e se entreolham.
se integram.
se destroem.
se ajudam a se recompor.
são separados por força disciplinar, mas se atraem e se confundem devido a força que não tem nome.

cara, eu queria os braços da minha alma de volta
para que eles abraçassem meu corpo
e acalmassem minha mente.

caso encontrar favor devolver
propriedade de
se é que mesmo isso eu tenho o direito de pedir.

domingo, 10 de junho de 2018

por que é que me vem essa necessidade
em momentos estratégicos
de outras mãos
outras bocas
outros corpos?
não me basta o meu?

minha análise de mim mesmo é que procuro algo que eu talvez nem queira por culpa de uma necessidade implantada tão profundamente que não faço ideia de como arrancar

sexta-feira, 8 de junho de 2018

bússola

você me tirou do meu próprio corpo
quando me olhou;
agora estou na sua dimensão.
me mostre
por favor
como o seu corpo funciona

domingo, 20 de maio de 2018

alquimistas

à meia-noite eu peguei sua mão te disse que ia ficar tudo bem e te trouxe pro meu mundo

à uma da manhã você desenhou o mapa do seu mundo no meu corpo com seus beijos
eu me perdi e me achei em mim mesmo e em você
guiado pela respiração
de um de nós dois

às duas você me fez carinho nos cabelos, falou do brilho dos meus olhos e traçou meu sorriso com a ponta dos dedos

às três fomos rápido demais e o tempo parou pra assistir
um espetáculo de forças e mundos performado por dois corpos que seguiam a orientação do instinto

às quatro você me perguntou
como eu imaginava o fim do mundo;
eu te respondi que não fazia ideia, mas que estava pronto

às cinco eu descansei
sétimo dia da Criação
fiz do seu peito travesseiro
enquanto você me contava histórias de uma outra época que, ainda assim, pareciam estar logo ali

às seis o sol bateu naquilo que já não éramos mais nós dois
perdidos
em nós mesmos

éramos nós dois
mapeados
descobertos
um graças ao outro;
esforço mútuo que
fez crescer.

sábado, 12 de maio de 2018

peace

i hope one day i learn to live with myself
without trying to control myself
without locking myself up
in other people's expectations
então deixa o meu coração abrir e sangrar
deixa todo o sangue ir embora
deixa tudo secar
e amanhã
ainda assim
vou estar pronto pra viver outra vez

terça-feira, 8 de maio de 2018

não me odeie por eu não ser tóxico como você

se você não conseguiu engolir meu coração
me devolva gentilmente
não cuspa na minha cara

se você não conseguiu me dominar
não me rechace por eu nunca ter tentado

enquanto você cuspir
enquanto me rechaçar
o gosto estranho do meu coração
não vai sair da sua boca

domingo, 6 de maio de 2018

translucidez


entre todas as pessoas do mundo, ele encontrou a si mesmo. não sabia o que fazer com aquela outra carcaça.
olhava pra fora e pra dentro ao mesmo tempo e tinha medo. sabia os quês e estava descobrindo os comos, mas seu medo era que os comos viessem a destruí-lo.
a força que exigia pôr em prática um estilo de vida ele achava que vinha de outro lugar, porque não podia exisitir neste universo.
andou e olhou, pra fora e pra dentro, seguiu as trilhas de sangue da alma – nunca antes tinha visto sangue de cor nenhuma – e agora enxergava tudo. todas as noites, lia para si em voz alta as mesmas constatações, mas elas pareciam pertencer tanto ao papel, aos lábios, ao som da voz. a vida nunca as tinha reclamado pra si. achava que o que devia ser feito era uma conquista da vida pelas palavras. não que fosse possível, mas o que
mas o possível é sem graça e o impossível tem uma graça triste.
um humor ácido. que corrói e transforma.
ele quebrou o próprio corpo e não sabia o que fazer com aquela outra carcaça quebrada.
ele se corroeu
ele aguardava
impacientemente
forças de outros universos
que talvez demandassem paciência.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

coming alive

i'm tired of everything inside me crumbling
collapsing
i'm tired of all these fragments of myself hitting each other
forming a new thing that has no shape
that is never finished
always coming together and
breaking apart
at the same time;
this new me that never breathes life
because he can't stop choking on the never ending process of being born

terça-feira, 20 de março de 2018

da vez em que fui cirurgião sem saber cortar

mãos trêmulas, mas minhas, seguram a tesoura.
se existe uma coisa que eu nunca tive foi precisão cirúrgica.
já estou chorando, o corte dói mesmo antes de eu abri-lo. nem sei se laços assim se desfazem e te deixam viver depois.
é tão diferente de tudo o que eu já fiz, mas nada além do desespero me trouxe até aqui.
eu não sabia mais como agir - e, aliás, que escolha me foi dada?
um laço que é um amor que é um travesseiro sendo pressionado contra a minha cara me sufocando.
dizem que não escolhemos essas coisas, mas até que ponto eu tenho que ficar aqui parado e me deixar estraçalhar? e como eu tentei.
primeiro eu gritei, pois não sabia estruturar a dor em argumentos plausíveis. depois eu me escondi e menti para mim mesmo dizendo que estava tudo bem. funcionou por um tempo, mas chegou uma hora em que você já estava tão confortável comigo anulando minha própria existência para te manter na sua zona de conforto que resolveu atacar mesmo assim.
e aí foi demais.

você diz que me ama e que quer meu bem.
legítimo estado de bem estar.
mas eu não sei o que é isso
que faz eu querer abandonar a mim mesmo
que faz com que eu queira me esconder atrás de uma sombra minha em nome do que chamam boa convivência
eu não sei o que é isso e nem o que isso faz comigo direito, mas sei que isso não é amor nem nada parecido.
e você mente para mim para você para todos dizendo que você é esse poço de compreensão enquanto eu sou essa besta indomável que insiste em não se anular sempre que solicitada, que insiste em não se curvar diante de um discurso que sutilmente arranca-lhe pela boca as estranhas.
mas é amor.
sabe, essa coisa, essa árvore em que crescemos juntos,
todos nos amamos,
tire uma foto de como somos unidos,
mas, antes, por favor, se varra para debaixo do tapete.

eu achava que havia algum respeito, pelo menos, eu me enganava dizendo que havia. afinal, essa palavra na sua boca tem um gosto tão bonito.
brilha.
eu fui é claro tolo em acreditar no terreno comum respeitoso, na zona intermediária em quem ninguém fosse se machucar e todos ficariam felizes.
eu já estava enterrado até o tronco a essa altura e hoje eu sei que você não vai parar enquanto não afundar minha cabeça na areia.

tudo isso levou ao desespero ao desamparo à tesoura. quero que você saiba que, enquanto eu faço a incisão e corto o laço, é a sua mão que guia a minha, uma mão que sorri enquanto faz o serviço. de todas as coisas que você deveria ter feito e não fez, pelo menos assuma a autoria deste momento. o sangue se espalha o laço se rompe e a tesoura cai das minhas mãos trêmulas. eu sinto alguma coisa, mas não sei o que é. sua mão se despede de mim.
hoje cai um galho que espero que encontre raízes mais felizes.

sexta-feira, 16 de março de 2018

posso passar a borracha por cima de tudo
sem passá-la por cima de mim mesmo?

nada

por que você não liga pra mim
por que você não se importa com o que eu tenho a dizer
e não fica feliz com as minhas conquistas
por que você não se interessa por nada que venha de mim
a não ser que seja algo que influencie na sua vida de alguma forma

eu sei que eu não sou nada do que você queria
mas não dava pelo menos pra fingir um pouco
só um pouquinho
que você fica feliz com as coisas boas que eu conquistei pra mim mesmo
mesmo não sendo as coisas boas que você pensou pra mim

por que você não me dá atenção
e por que no fundo eu sinto a necessidade de provar pra você
que sou digno do seu afeto
a todo instante
por que no fundo eu acredito que eu mereço
toda essa indiferença
que eu fiz por merecer todo esse vazio
já que tenho a sua cara
o seu sangue
e ainda assim não consigo ser interessante pra você
pai

sábado, 3 de março de 2018

termo de compromisso


você leu e aceita os termos do acordo para pôr os pés nesta ilha
você leu e concorda
você
de livre e espontânea vontade
eu preciso ver o contrato
uma assinatura
mas de que vale um sim
de que me vale qualquer coisa
o que pode me garantir qualquer registro ou promessa registrada apenas na mente
quando a boca e o cérebro estão em vales que não se comunicam
quando a vontade não passa de uma
simplificação
que resume e apaga ao resumir
e nesse apagar destrói qualquer possibilidade de se fazer a coisa certa.

sabe,
eu não venho com manual de instruções
meu coração não cabe na sua língua
eu não sou feito desse material que responde a palavras não ditas.
eu venho de longe e
acima de tudo
não venho para isso.
nada do que digo é segredo
mas do que adianta exigir que se saiba o óbvio
se qualquer prova de ciência
não prova coisa nenhuma.

meu plano era pegar todas as assinaturas que me foram cedidas ao longo dos anos
e fazer com elas um escudo:
falha épica sem precedentes.
na briga de fogo e papel
para a justiça não há mais que um beco sem saída.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

termina com uma pergunta

o que resta da vida para não torná-la um desperdício é, para mim, a diversão. acho divertidíssimo ver as pessoas presumindo coisas sobre mim enquanto eu me desfaço em pedaços.
o olhar alheio é muito divertido também, já que vejo nele tudo menos a mim mesmo e, assim, não faço ideia do que vejo.
é divertida a forma como eu vivo coisas que interpreto como sinais de algo superior, mas que no fundo não são nada.
mais divertido ainda é ser esfaqueado e passar o tempo que eu poderia estar usando para me salvar me perguntando se eu inventei a faca.
sem esses rompantes de diversão, o que seria da vida?
cinza.
e a presença desses rompantes
no que ela transforma a vida?