terça-feira, 20 de março de 2018

da vez em que fui cirurgião sem saber cortar

mãos trêmulas, mas minhas, seguram a tesoura.
se existe uma coisa que eu nunca tive foi precisão cirúrgica.
já estou chorando, o corte dói mesmo antes de eu abri-lo. nem sei se laços assim se desfazem e te deixam viver depois.
é tão diferente de tudo o que eu já fiz, mas nada além do desespero me trouxe até aqui.
eu não sabia mais como agir - e, aliás, que escolha me foi dada?
um laço que é um amor que é um travesseiro sendo pressionado contra a minha cara me sufocando.
dizem que não escolhemos essas coisas, mas até que ponto eu tenho que ficar aqui parado e me deixar estraçalhar? e como eu tentei.
primeiro eu gritei, pois não sabia estruturar a dor em argumentos plausíveis. depois eu me escondi e menti para mim mesmo dizendo que estava tudo bem. funcionou por um tempo, mas chegou uma hora em que você já estava tão confortável comigo anulando minha própria existência para te manter na sua zona de conforto que resolveu atacar mesmo assim.
e aí foi demais.

você diz que me ama e que quer meu bem.
legítimo estado de bem estar.
mas eu não sei o que é isso
que faz eu querer abandonar a mim mesmo
que faz com que eu queira me esconder atrás de uma sombra minha em nome do que chamam boa convivência
eu não sei o que é isso e nem o que isso faz comigo direito, mas sei que isso não é amor nem nada parecido.
e você mente para mim para você para todos dizendo que você é esse poço de compreensão enquanto eu sou essa besta indomável que insiste em não se anular sempre que solicitada, que insiste em não se curvar diante de um discurso que sutilmente arranca-lhe pela boca as estranhas.
mas é amor.
sabe, essa coisa, essa árvore em que crescemos juntos,
todos nos amamos,
tire uma foto de como somos unidos,
mas, antes, por favor, se varra para debaixo do tapete.

eu achava que havia algum respeito, pelo menos, eu me enganava dizendo que havia. afinal, essa palavra na sua boca tem um gosto tão bonito.
brilha.
eu fui é claro tolo em acreditar no terreno comum respeitoso, na zona intermediária em quem ninguém fosse se machucar e todos ficariam felizes.
eu já estava enterrado até o tronco a essa altura e hoje eu sei que você não vai parar enquanto não afundar minha cabeça na areia.

tudo isso levou ao desespero ao desamparo à tesoura. quero que você saiba que, enquanto eu faço a incisão e corto o laço, é a sua mão que guia a minha, uma mão que sorri enquanto faz o serviço. de todas as coisas que você deveria ter feito e não fez, pelo menos assuma a autoria deste momento. o sangue se espalha o laço se rompe e a tesoura cai das minhas mãos trêmulas. eu sinto alguma coisa, mas não sei o que é. sua mão se despede de mim.
hoje cai um galho que espero que encontre raízes mais felizes.

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