domingo, 11 de dezembro de 2016

Invocação gutural

Eu não quero fama, muito menos prestígio. Eu desprezo o barulho das multidões.
Eu quero que me amem pelo meu cérebro, pela minha alma, por quem eu sou. Eu quero sentimento, porque reconhecimento têm aqueles que patinam sobre gelo fino.
Eu quero furar todos os egos que vocês insistem em afagar, quero destruir, um a um, os pedestais em cima dos quais vocês se colocam, quero que queimem todos os holofotes cuja luz vocês fazem baixar sobre si mesmos.
Então você pode ter seu prestígio, eu não me importo. Pode ficar com ele. Eu não vou somar minha voz desnecessária a outras mil que dizem as mesmas coisas procurando arrancar dos outros um suspiro de inveja acadêmica.
Fique com o prestígio e eu me manterei no sentimento. Eu aprenderei com os acadêmicos e sentirei o "conhecimento" por eles legitimado na minha alma. Eu vou viver a dor do saber e o amor do compartilhar aquilo que sei que é meu dever emocional dizer. Enquanto você cresce recebendo aplausos, eu vou crescer dentro de mim e minhas folhas cairão pelo mundo em cada ato meu. Eu crescerei no que me cabe, no que me importa. Com o tempo talvez eu até aprenda a falar de mim sem precisar escrever textos que se prendem exaustivamente e egoisticamente à primeira pessoa. Quem sabe o que poderei me tornar quando tiver preenchido meu espaço por completo e transbordado o que sou para fora, não em atos ensaiados e que visam a arrancar suspiros, mas em atos em que fale meu próprio espírito?
Mas tome cuidado, porque meu transbordar não será um ato pacífico. Não virei para trazer a paz intimidadora pela qual você preza, mas para destruir o prestígio que você tanto ama. Para arrasar você e vocês, seus círculos de massagem recíproca de egos e polimento de pedestais. Para rasgar todos os padrões altíssimos e inatingíveis que vocês construíram.
E então vai haver só sentimento.
Você, nas profundezas de si mesmo, se encolhe diante desse pensamento, eu sei. Mas é esse meu objetivo e, para mim, não há possível cenário mais lindo.

sábado, 10 de dezembro de 2016

Começo


Seja gentil com os que passam como passa o vento. Machuque os que sempre ficarão.
Disse o mestre ao aluno.
O mestre da arte de não se importar.
Do não querer saber.
Do fingir não estar.
Deixe que venham, que implorem, que rastejem. Deixe que conheçam apenas uma parte de você e, quando menos esperarem, esfregue na cara deles que existem muitas outras que eles nunca vão conhecer, mas que você está feliz em distribuir para o resto do mundo.
Mostre a eles que há um afeto dentro de você que nunca receberão, não importam o que façam, mesmo que rachem os fundamentos do Universo.
Seja seu próprio salvador e a desgraça da humanidade.
Banhe-se das lágrimas daqueles que, segundo as leis do bom senso, mereceriam sua consideração. O sentimento contido nessas lágrimas te dotará de uma força vil que o tornará capaz de esmagar o mundo sob seus próprios punhos, de escravizar o planeta à justificativa de sua própria imagem.
Depois que tiver feito tudo isso, nada mais restará a não ser você mesmo num mundo tomado pelo caos. Mas isso não é ruim. Pois só o caos importa.
Não o caos que cria, mas sim o caos que destrói. O caos que será a ruína de seus semelhantes e te tornará conquistador de mundos. Seu trabalho é liberar toda a podridão desse caos, e disso você obterá seu sucesso e sua força.
Com essas palavras o mestre terminou sua lição e soltou o aluno no mundo.
O aluno conheceu uma pessoa e a tomou para si com um beijo.
E assim teve início o que, hoje, após um período de tempo longo demais para ser medido, chamamos Humanidade.

sábado, 29 de outubro de 2016

When you go away

Every time you get away from this city
I know that
You are in fact running away from me
Because I suffocate you
With my needy love
And my grabbing hands
And I am sorry for that but
Even though I know this dark truth
I still cannot help
But holding you tight
Everytime you start to walk away

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O fim não é mais que um momento vazio


Eu me despi de mim mesmo e me despi de todo o resto em minha busca pela felicidade.
Eu deixei para trás meus sonhos e já também tentei segui-los. Eu tentei me descobrir e tentei descobrir o mundo. Tentei as fórmulas prontas e a ação intuitiva. 
Eu entreguei meu coração, exposto e rasgado em praça pública, à mais real das criaturas. Eu mantive meu coração trancafiado, monopólio de mim mesmo. Mostrei sentimento e mostrei indiferença.
Fui culto, fui pop, fui trash, fui a escória do mundo e o orgulho dos poderosos. Fingi entender a arte e depois chafurdei em melodias vazias.
Já tentei agradar e também já taquei o foda-se. Misturei-me a todos os outros e depois tentei me individualizar.
Reclamei de tudo e tentei ser otimista.
Atirei-me nos impulsos e depois me dediquei à complexa arte de calcular ações.
Tentei tentei e não consegui pisar em nada mais firme que em mim mesmo.
Depois que o mundo inteiro já tinha entrado em mim e saído sem criar raiz, só sobrou o silêncio.
O baque mudo de quando não há mais coisa que produza som.
Nunca experimentara sensação mais aterrorizante.
Tentei gritar, mas minha voz materializava-se na falta de som. O ar em meus pulmões parecia feito de nada.
Agonizei.
Até hoje não sei o que vem depois do instante eterno em que o mundo se cala e você continua lá.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

devo me livrar das letras maiúsculas nos inícios das frases
abandonar os pontos finais
ignorar as exclamações
fazer pouco caso dos pontos de interrogação
pois as palavras se bastam
as palavras têm vida e se movem
as palavras transmitem alma e substância

nas palavras
e somente nelas
devo encontrar meu apoio

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Sobre a arte do ilusionismo


Admiro os ilusionistas, sua capacidade de, entre outras coisas, viajar de um lugar ao outro no intervalo de um instante, desafiando os limites do espaço-tempo. Aos olhos de quem se arrisca a permanecer ao lado deles e servir-lhes de espectador, pelo menos, são seres que extrapolam a mera humanidade.
O que me cativa é a mágica dos gestos simples, a floreada encenação do desaparecer. Observo os panos tremularem ao seu redor, tento captar o jogo de espelhos, adivinhar o truque da vez, talvez na esperança de me levantar e bradar aos quatro cantos do planeta que sim, eu sei como funciona a válvula de escape, frustrando assim uma fuga em curso. Nunca obtenho, no entanto, sucesso em minhas empreitadas desse estilo. Eles, os ilusionistas, se movem com destreza, fazem mesmo os truques mais previsíveis tornarem-se difíceis de captar com os olhos.
Confesso que minha admiração tem nela encrustada um quê de masoquismo. Eu, como mero humano patético, me afundo em frustração ao não conseguir acompanhar os floreios desses tipos sobre-humanos. É um processo de erros repetidos em que eu nunca pareço aprender que só há uma atitude certa. Teimoso, não convencido por todas as falhas anteriores, assisto a um truque como um aluno aplicado, confiante de que, dessa vez, tudo será diferente, dessa vez conseguirei não ser passado para trás. Por um instante, e é este, geralmente, o instante que vem imediatamente antes de o truque se concretizar, atinge-me a certeza absoluta do sucesso. Penso comigo que, finalmente, cheguei ao mesmo patamar do ilusionista que sigo com os olhos.
Então tudo desmorona. Assisto enquanto ele se dissolve diante de meu olhar atento, vez após vez, como um idiota que se meteu numa briga que era fraco demais para sustentar e agora apanha sem cessar enquanto clama por misericórdia.
É uma rotina de dor e fascínio da qual é cada vez mais difícil fugir. Quanto mais tempo observo, mais me apego ao ilusionista e mais me sinto ligado ao truque – mesmo sabendo, no fundo, que sempre serei naquele universo um estrangeiro, no máximo um turista. Envolvo-me nessa falsa rede que me prende ao que me fere e me deslumbra como o tolo que sou. Nos momentos em que me dou conta do aperto dos laços, nesses momentos sempre há lágrimas. Elas rolam por meu rosto e caem, como tripulantes de um navio que naufraga saltando para fora da carcaça da embarcação antes de afundarem junto com ela. Eu as deixo ir porque sei que haverá muitas outras. A única certeza que possuo nisso tudo que se prova verdadeira é a de que sempre haverá lágrimas para meus prantos.
Certa vez eu tentei fazer o que faz um ilusionista. Dobrei dois espelhos em um ângulo milimetricamente definido, confeccionei uma caixa preta cravada de estrelas e arranjei uma capa roxa que tremulava no ar como nenhuma outra que eu já vislumbrara. Vesti a capa e subi na caixa colocada entre os espelhos. Se eu quisesse estar no patamar dos ilusionistas, pensei comigo mesmo, bastava repetir uma de suas façanhas. Talvez eu não conseguisse acompanhar truques com os olhos, mas com certeza poderia realizar eu mesmo um que já soubesse como funcionava.
Estendi alto nos braços as duas pontas de minha capa e me concentrei como nunca antes na vida, mais até do que quando tentava desvendar os movimentos alheios. Fiz uma prece silenciosa a quem quer que guardasse os seres que desapareciam e, tentando o máximo possível fazer minha mente entrar em foco perfeito, minimizar minhas dissonâncias internas, baixei o pano roxo sobre mim mesmo.
A força do pensar agiu sobre minhas entranhas e eu gritei. Ouvi então um barulho horrível e soube que tinham se estilhaçado os dois espelhos. Observei pelo canto do olho, sem conseguir me mover, enquanto os cacos de vidro caiam sobre meu corpo trêmulo e ainda assim firmemente fixado àquela maldita caixa preta estrelada. Após um instante de agonia em que minhas entranhas se contraíram devido à antecipação do impacto, senti, finalmente, a dor.
Como era pavorosa. Uma dor profunda e real como nenhuma outra que eu houvesse sentido antes. Senti que sangrava em múltiplos lugares. Estava derrotado de vez, podia ouvir meu plano ridiculamente articulado rindo do meu fracasso. As lágrimas brotaram em meio a um rosto ensanguentado. Os canais lacrimais, claro, tinham sobrevivo à quebra da vidraria.
Eu olhei, então, para o alto, todo sangue, lágrimas e fracasso, e implorei. Que sumisse dali. Que não sentisse mais dor. Que o truque falhasse, mas que, pelo menos, minha humilhação fosse dissipada. Por favor. Por favor. Eu não tenho nada. Tire-me daqui. Se existe amor sem dor, mostre-me o lugar onde ele se encontra.
E eu sumi. Não me pergunte como, mas, de algum modo, sei que fui transportado para dentro de mim mesmo. Desde então estou preso em mim. Vago, dia e noite, por meus caminhos internos, pelos vales que o tempo todo carreguei comigo, esperando um dia deparar-me novamente com aquele que é meu agressor e minha força vital. Esperando um dia reencontrar o ilusionista.


terça-feira, 2 de agosto de 2016

Coisas de que tenho medo


Perceber que a vida é na verdade pular de um precipício.
Existir sem viver, desperdiçar o tempo que leva até atingir o chão.
Remoer incessantemente o passado mesmo sabendo que ele nunca irá mudar.
Deparar-me com uma perspectiva assustadora de futuro que não sou capaz de impedir.
Esperar o melhor e receber indiferença.
Resistir bravamente até o penúltimo instante só para desistir no último.

Vociferar mentiras para pessoas que amo em momentos de raiva.
Ouvir, mas não escutar - perder a capacidade de empatia.
Começar algo importante e não ter coragem para ir até o fim.
Entender, tarde demais, que estou sozinho no mundo.

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Direção




Eu fiz das minhas decepções um boneco e o queimei na praia.
A forma como o mundo responde às minhas inseguranças, eu a pus no papel.
O vento soprava forte na praia aquela tarde. Era possível sentir o ar passar pelas extremidades do meu corpo e, de alguma forma, atravessar o cerne dele.
Os papéis à minha frente também tremulavam conforme o vento soprava, mas não se soltavam e se perdiam. A dor os prendia com força uns aos outros.
As facas enfiadas no meu corpo, pela frente ou pelas costas, coloquei-as todas em papéis.
Dei um passo à frente, sentindo o movimento da areia diante do movimento dos meus pés. Capacidade de ação sobre o mundo. Mas e sobre meu interior?
Apagar-me e me reescrever. Até que ponto vai a minha liberdade de recriar a mim mesmo?
A areia é maleável, mas meu corpo é firme. Estou preso a ele e não posso mudá-lo. Perceber isso fez com que eu me sentisse como que numa jaula de metal. Uma jaula de metal numa tarde ensolarada na praia.
Do que adiantava botar para fora as decepções se eu ainda continuava lá dentro?
Bom, talvez o ato mesmo de me livrar delas torne meu corpo menos uma jaula e mais uma casa.
Os momentos em que fui bombardeado pelos meus semelhantes, todos devidamente registrados e colocados no boneco feito de papéis.
O som do quebrar das ondas lembra-me o barulho do meu coração ao ser estilhaçado. Eu estremeço involuntariamente diante dessa associação. Deveria ter escolhido um lugar melhor. Mas há realmente um lugar adequado para se reconstruir?
O boneco esvoaçante à minha frente é feito de papel. O papel é feito de carne. A carne é feita dos meus pensamentos e de toda a matéria que o mundo já me fez deglutir. Eu olho para ele e vejo beleza em seus olhos. Aí percebo que ele não os tem.
Todos os sentimentos que eu esperava do mundo, mas que nunca vieram, registrei a não existência deles através da falta de registro e, portanto, estavam representados por papéis em branco.
Abaixei-me e peguei a tocha acesa antes apoiada em um suporte. O calor do fogo era para mim liberdade. Dei um passo e mais outro e outro ainda em direção ao avatar do meu desespero, que se tornava mais e menos real ao mesmo tempo conforme eu me aproximava.
As palavras cruéis, principalmente elas, anotei-as todas com a força da dor que me causaram. Coloquei-as no centro para que queimassem a partir do calor que emanasse dos outros papéis.
Conforme o vento soprava em direção ao mar, estendi a tocha até o boneco. Quando ela estava prestes a tocá-lo, entretanto, hesitei.
Ele parecia ter rosto. Era o rosto da pessoa que me machucara. Novamente, todavia, lembrei-me de que ele não tinha feições. Minha tentativa de personalizar minhas decepções em um rosto era tão patética quanto todo aquele ato. Meu agressor não tinha um rosto, e sim muitos, e sim todos os rostos que já existiram.
Era hora de vê-los queimar.
A chama tocou o boneco e os papéis se incendiaram. O fogo começou lentamente a se alastrar e a tomar conta daquele corpo construído. Derrubei, num rompante, a tocha, que se apagou na areia.
O boneco queimava.
Eu chorava ao ver as cinzas de tudo o que tinha me feito mal ascendendo e se afastando em direção ao mar. Eu estava livre. Apagara-me e iria me reescrever.
Mas o vento mudou de direção.
Fui, então, no virar de um segundo, atacado pela fumaça e pelas cinzas, que, antes que eu pudesse me dar conta, envolviam-me e me cegavam.
Tentei lutar, tentei afastar as cinzas, mas elas se grudavam com força a mim, provavelmente através da mesma dor que mantivera de pé o boneco. Tentei correr, fugir, mas tinha perdido a mim mesmo na fumaça, que estava por todos os lados.
E foi nesse instante em que percebi que o sofrimento que eu causava a mim mesmo também tinha sido posto naquele boneco, mesmo que inconscientemente, e que ele era a pior de todas as coisas que fizeram parte dele.
Enquanto o desespero tomava conta de mim, fui entendendo que não existia eu e então o mundo, mas sim eu dentro do mundo. O ato de se apagar e se reescrever não permitia descarte parcial sem descarte total.
O desespero tornou-se, então, aceitação. Sentei-me na areia e passei a esperar a fumaça passar e as cinzas se acalmarem. Eu sabia que, quando a nebulosidade que eu mesmo causara cessasse, a vista pareceria diferente aos meus olhos.

sexta-feira, 25 de março de 2016

A terra te entenderá



A terra imprimia sobre meus dedos uma textura agradável conforme eu a manuseava, preparando-me para começar a cavar.
Eu estava agachado, os joelhos desnudos também em contato direto com o solo, já que vestia bermudas. As copas das árvores estendiam-se acima, lançando sobre mim sombras que se moviam conforme o vento, através das quais passava a luz do meio-dia. Sentia-me vivo e conectado ao planeta. Era chegada a hora.
Mergulhei minhas mãos na terra escura e macia, enchendo-as do seu conteúdo, e jogando o que consegui pegar para fora do perímetro que eu desejava escavar, ou o que eu pensava que seria o perímetro. Olhei para o pequeno punhado agora amontoado ao meu lado. A tarefa seria árdua. Voltei a submergir meus instrumentos anatômicos de trabalho.
Espero que não seja surpreendente o fato de que eu não tinha a mínima ideia do que estava fazendo ali. Não sabia como tinha chegado àquela clareira, sequer àquela floresta, não sabia se eu tinha algum tipo de destino ou de objetivo. A única trilha de racionalidade em funcionamento no meu cérebro mandava-me cavar um buraco na terra, do tamanho que me aprouvesse.
Poderia ser uma piscina, eu pensava enquanto cavava. Eu gostava da água. Era perfeitamente capaz de me imaginar ali, boiando, no meio daquela clareira, conectado à terra. Claro que movimentos complicados de natação sempre me foram impossíveis de executar, mas não seria uma piscina funda. Seria solitário, no entanto, aproveitar uma piscina no meio do nada. Inicialmente me traria a calma, mas depois com certeza a agonia. Não seria possível, claro, trazer alguém para compartilhar de minha construção. Àquela altura, não conseguia me lembrar se eu tinha pessoas além de mim mesmo em minha vida, mas se tivesse, dificilmente essas pessoas estariam dispostas a viajar até o meio daquele lugar isolado somente para me fazer companhia à piscina. Mas, ao mesmo tempo, a água me era tão apelativa…
No próximo momento, era como se eu pudesse vê-la, a piscina. Eu estava no meio dela, mas a água batia somente nas minhas canelas. Conseguia sentir, no entanto, um rastro molhado em meu corpo. Notei em minha pele duas linhas úmidas, que terminavam nas canelas, ao nível da água, e fui acompanhando seu rastro por meu corpo, subindo pelas coxas, passando pela virilha, o tronco, até que -
Lágrimas.
Definitivamente não seria uma piscina.
Continuei a cavar, o ritmo o mais próximo de constante que eu conseguia manter.
As sombras das copas acima balançavam, o vento passava por mim e eu podia sentir o sol se deslocando, aproximando-se do horizonte. Já era quase noite. O buraco começava a tomar forma. Eu me empenhava em fazer o maior perímetro possível.
Talvez, novamente cogitei, eu construiria aqui a base de uma casa. Faria um perímetro de fato enorme, e sobre a base que viria dele edificaria meu lar. Nesse caso, acredito que as supostas pessoas que existem em minha vida estariam mais dispostas a compartilhar do espaço comigo, a virem se juntarem a mim. Uma casa oferecia mais segurança e aumentava as chances de uma vida compartilhada. Poderia eu, todavia, mantê-la?
No momento seguinte, fruto de minha hipótese, casa estava ali, e eu estava nela. Meu semblante, entretanto não era de felicidade. Eu abria a porta e corria. Vi, então, das janelas brotarem labaredas. Eu não conseguia determinar a origem específica do fogo, mas sabia que eu o tinha causado. Um descuido qualquer, aposto. Um pequeno descuido com consequências desastrosas. Ouvi gritos humanamente guturais subirem ao céu com as chamas que levariam embora, num futuro hipotético, a minha estabilidade.
Não uma casa. Com certeza não. Nem um perímetro muito grande. Aliás, aquela largura estava boa.
Era noite àquela altura. O vento continuava a soprar, mas as sombras haviam engulido a maior parte da luz. A lua não era visível no céu, mas eu enxergava a terra. Mesmo no escuro, conseguia sem dificuldade acompanhar com a visão o andamento do meu trabalho.
Não cessava de cavar, nem por um momento, almejando sempre a constância absoluta.
Por um momento, enquanto olhava para a terra, pensei que poderia erguer, nos moldes daquele buraco, um muro. Eu ficaria, assim, livre do peso de causar algum dano à vida alheia, e as pessoas hipotéticas da minha vida estariam livres de suas obrigações morais para comigo. Liberdade. Isolamento das minhas aflições. Era a melhor opção, racionalmente, e podia já imaginar o muro estendendo-se a partir daquela fenda na terra.
Eu batia nas paredes. Gritava. Lágrimas. Dor. A razão machucava. Eu era livre do meu lado do muro, mas a liberdade me matava aos poucos. A segurança do muro lançava sobre mim a limitação de não poder correr riscos. Eu estava isolado dentro da minha própria racionalidade.
O muro se fora e eu estava novamente cavando. Decidi, portanto, que não poderia de maneira alguma um muro ser o resultado daquela escavação. A extensão, portanto, não poderia ser maior do que a que eu já tinha atingido.
Era já madrugada.
Verifiquei a profundidade. Não gostaria de cavar mais que aquilo. Levantei-me.
Eu tinha terminado.
Mas de que serviria aquele maldito buraco? Todas as possibilidades que eu fora capaz de conceber terminavam em desgraça. Teria sido todo aquele trabalho, então, para construir a armadilha do meu próprio desespero?
Eu estava perdido.
Até que o planeta falou comigo.
Ouvi uma voz vinda de todas as direções, que pulsava, inclusive, dentro de mim. Era a voz do mundo, o alento do centro da Terra. Era suave, penetrante, fria e calma. E se dirigia diretamente a mim.
Não temas, garoto. Tu não precisas de nada disso. Não é necessária uma piscina para abrigar tua solidão, uma casa para ser o palco de tua ruína, ou um muro que te isole do bem e do mal. Tudo o que é preciso e tudo de que tu necessitas é a terra. O garoto e a terra, a terra e o garoto. A terra te entenderá. A terra enxugará tuas lágrimas, apaziguará teu desespero. A terra será teu conforto nos dias de ruína, salvando-te do caos. A terra te protegerá de ti mesmo, naqueles momentos em que tu pensares estar se protegendo mas só estiver incutindo a ti mesmo o mal. Então deita, garoto, deita sobre a terra macia e escura e sente seu conforto. Deita sobre a terra e nada mais será necessário para que tu alcances a paz de espírito que desejas a cada respirar.
Eu escutei, assim, a voz do planeta. Virei-me e me deitei de costas no buraco que eu tinha cavado. O tamanho era surpreendentemente preciso. Eu cabia perfeitamente.
Senti a maciez da terra me tocar em pontos inúmeros, e já naquele instante eu soube.
É ali que eu deveria estar, ali é o lugar em que eu deveria ter estado o tempo inteiro.
Eu e a terra.
A terra e eu.
Eu fechei os olhos e deixei a vida me enterrar.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Melancolia egoísta


No fim das contas, sou eu sozinho.
Eu, deitado na minha cama, sem forças para fazer qualquer outra coisa que não lamentar as dificuldades que criei para mim mesmo.
Eu, as garrafas viradas de sonhos derramados e as montanhas de pensamentos perigosos que povoam meu quarto.
Eu e os espectros das pessoas que permeiam minha vida. As pessoas que me amavam até me descobrirem alguém ridiculamente estilhaçado; as pessoas que nunca me amarão e nunca me descobrirão; e as pessoas que me amam e fingem não saber de nada.
Me amam por pena. Me amam por não terem escolha, por estarem no meu beco sem saída, soterradas pela minha autopiedade. Me amam por medo de que eu termine de quebrar e não tenha mais conserto. Me amam por todos os motivos pelos quais alguém deveria deixar de amar uma pessoa.
Mas, no fim das contas, sou só eu. E os sonhos. E os pensamentos. E os espectros. E a realidade vista de longe pelo caleidoscópio do meu eu imóvel.
Acredito que não estou sozinho, então. Tenho bastante companhia.
Deixe que me envolvam, que me fechem num casulo, que me mergulhem em todas as minhas dúvidas.
Vai passar.
Uma hora ou outra, conseguirei novamente acreditar nas mentiras que me contam para que a realidade faça sentido.