Eu
fiz das minhas decepções um boneco e o queimei na praia.
A
forma como o mundo responde às minhas inseguranças, eu a pus no papel.
O
vento soprava forte na praia aquela tarde. Era possível sentir o ar passar
pelas extremidades do meu corpo e, de alguma forma, atravessar o cerne dele.
Os
papéis à minha frente também tremulavam conforme o vento soprava, mas não se
soltavam e se perdiam. A dor os prendia com força uns aos outros.
As
facas enfiadas no meu corpo, pela frente ou pelas costas, coloquei-as todas em
papéis.
Dei
um passo à frente, sentindo o movimento da areia diante do movimento dos meus
pés. Capacidade de ação sobre o mundo. Mas e sobre meu interior?
Apagar-me
e me reescrever. Até que ponto vai a minha liberdade de recriar a mim mesmo?
A
areia é maleável, mas meu corpo é firme. Estou preso a ele e não posso mudá-lo.
Perceber isso fez com que eu me sentisse como que numa jaula de metal. Uma
jaula de metal numa tarde ensolarada na praia.
Do
que adiantava botar para fora as decepções se eu ainda continuava lá dentro?
Bom,
talvez o ato mesmo de me livrar delas torne meu corpo menos uma jaula e mais
uma casa.
Os
momentos em que fui bombardeado pelos meus semelhantes, todos devidamente
registrados e colocados no boneco feito de papéis.
O
som do quebrar das ondas lembra-me o barulho do meu coração ao ser estilhaçado.
Eu estremeço involuntariamente diante dessa associação. Deveria ter escolhido
um lugar melhor. Mas há realmente um lugar adequado para se reconstruir?
O
boneco esvoaçante à minha frente é feito de papel. O papel é feito de carne. A
carne é feita dos meus pensamentos e de toda a matéria que o mundo já me fez
deglutir. Eu olho para ele e vejo beleza em seus olhos. Aí percebo que ele não
os tem.
Todos
os sentimentos que eu esperava do mundo, mas que nunca vieram, registrei a não existência
deles através da falta de registro e, portanto, estavam representados por
papéis em branco.
Abaixei-me
e peguei a tocha acesa antes apoiada em um suporte. O calor do fogo era para
mim liberdade. Dei um passo e mais outro e outro ainda em direção ao avatar do
meu desespero, que se tornava mais e menos real ao mesmo tempo conforme eu me
aproximava.
As
palavras cruéis, principalmente elas, anotei-as todas com a força da dor que me
causaram. Coloquei-as no centro para que queimassem a partir do calor que
emanasse dos outros papéis.
Conforme
o vento soprava em direção ao mar, estendi a tocha até o boneco. Quando ela
estava prestes a tocá-lo, entretanto, hesitei.
Ele
parecia ter rosto. Era o rosto da pessoa que me machucara. Novamente, todavia,
lembrei-me de que ele não tinha feições. Minha tentativa de personalizar minhas
decepções em um rosto era tão patética quanto todo aquele ato. Meu agressor não
tinha um rosto, e sim muitos, e sim todos os rostos que já existiram.
Era
hora de vê-los queimar.
A
chama tocou o boneco e os papéis se incendiaram. O fogo começou lentamente a se
alastrar e a tomar conta daquele corpo construído. Derrubei, num rompante, a
tocha, que se apagou na areia.
O
boneco queimava.
Eu
chorava ao ver as cinzas de tudo o que tinha me feito mal ascendendo e se
afastando em direção ao mar. Eu estava livre. Apagara-me e iria me reescrever.
Mas
o vento mudou de direção.
Fui,
então, no virar de um segundo, atacado pela fumaça e pelas cinzas, que, antes
que eu pudesse me dar conta, envolviam-me e me cegavam.
Tentei
lutar, tentei afastar as cinzas, mas elas se grudavam com força a mim,
provavelmente através da mesma dor que mantivera de pé o boneco. Tentei correr,
fugir, mas tinha perdido a mim mesmo na fumaça, que estava por todos os lados.
E
foi nesse instante em que percebi que o sofrimento que eu causava a mim mesmo também
tinha sido posto naquele boneco, mesmo que inconscientemente, e que ele era a
pior de todas as coisas que fizeram parte dele.
Enquanto
o desespero tomava conta de mim, fui entendendo que não existia eu e então o
mundo, mas sim eu dentro do mundo. O ato de se apagar e se reescrever não
permitia descarte parcial sem descarte total.
O desespero tornou-se, então, aceitação. Sentei-me na areia e
passei a esperar a fumaça passar e as cinzas se acalmarem. Eu sabia que, quando
a nebulosidade que eu mesmo causara cessasse, a vista pareceria diferente aos
meus olhos.
