- Me conte uma história.
- Uma história?
- Sim. Todo mundo só sabe falar das tristezas da vida, reclamar do dia a dia. As pessoas esqueceram-se do bem que pode fazer fugir vez ou outra para a ficção. Então me conte uma história, Cíntia.
Ela parou e o olhou como se de repente ele fosse um prédio que a estivesse impedindo de ver o sol por estar parado na frente dela.
- Se você acha que a ficção é fuga, você não passa de um merda. A ficção não afugenta os problemas, ela os abraça. Uma história fala da vida, reclama do cotidiano, mas de uma forma que não provoque dor ou tédio insuportáveis e sim empatia, repulsa ou tudo o que estiver no meio disso. A experiência de uma história não é uma visita a um mundo desconectado do nosso, mas sim a oportunidade de acompanhar um acontecimento no decorrer do qual realidade e imaginação se misturam até se tornarem indistinguíveis uma da outra. Você pode até pensar nela como fuga, mas é um abrigo bem no meio do caos,
- Ei, espera aí, de onde veio toda essa grosseria? Só estava tentando ter uma conversa agradável. Acho que cada um tem sua forma de enxergar as coisas. Pra mim pode ser fuga e pra você não, mas não precisa me chamar de merda.
- Impressionante. De repente, as pessoas têm sentimentos.
Ele nada disse. Encarou-a sem entender.
- Eu vou te contar a história que você pediu, Guilherme. Não sei se é ficcional ou não, mas é a narrativa de muitos e já quase virou patrimônio da humanidade. Existem pessoas que não importam. Pessoas com quem se pode falar qualquer coisa, até a mais extrema grosseria, e esperar que não se machuquem. Pessoas que podem ser acessadas em hora de necessidade e depois nunca mais. Essas pessoas não conhecem vínculos de mutualidade, mas apenas relações unilaterais, parasitárias, que exigem somente doação e em troca não dão nada. E a pior parte é que elas não têm o direito de reclamar. Qualquer protesto é um exagero, afinal, quando se é uma dessas pessoas não se tem direito nem a uma personalidade completa e autônoma, que dirá direito de estar puto. Não, qualquer sinal de insatisfação é drama, é manipulação ou desequilíbrio emocional. E sabe qual a história dessas pessoas, Guilherme? Você sabe?
Guilherme não conseguia nem se achar mais, quanto menos falar, então em silêncio permaneceu.
Cíntia resolveu que já era tempo demais deixando a tensão no ar e continuou.
- A história delas - ela disse - é que toda essa merda que elas escutam e não podem externalizar vai se acumular e crescer dentro delas, até chegar um dia em que elas vão explodir na sua cara e você vai ter que limpar os pedaços delas que grudaram em você. Dependendo de quem você for, conseguirá limpá-los com mais ou menos facilidade, mas o fato é que, cedo ou tarde, você vai conseguir e então simplesmente vai procurar outra pessoa que não te faça sentir mal por tratá-la mal e que, por isso, vai te levar a acreditar que você pode enchê-la de grosseria.
- Eu... O que está havendo com você hoje, Cíntia? Por que tanto rancor? Tem alguma coisa acontecendo? Alguém tem te tratado mal, te machucado?
- Não. Eu sou louca e espero além do que é plausível que se espere - espero consideração. Agora, Guilherme, se não se importa, preciso ir embora, então serei breve. O fato é que vai chegar um dia, muito tempo depois de hoje, em que você vai perceber que tudo que em tudo que eu já te disse havia duas linhas de significado, mas que você, sempre tão egoisticamente distraído, só captava uma delas. Então você vai repassar mentalmente todas as conversas que já tivemos, vai descobrir o outro sentido que dou a tudo e, finalmente, vai me conhecer de fato.
Cíntia virou-se e foi embora.
Com aquela partida, disse mais que com todas as palavras que havia dito antes somadas.
