Admiro os ilusionistas, sua capacidade de, entre outras coisas, viajar de um lugar ao outro no intervalo de um instante, desafiando os limites
do espaço-tempo. Aos olhos de quem se arrisca a permanecer ao lado deles e
servir-lhes de espectador, pelo menos, são seres que extrapolam a mera
humanidade.
O que me cativa é a mágica dos gestos
simples, a floreada encenação do desaparecer. Observo os panos tremularem ao seu redor, tento captar o jogo de espelhos, adivinhar o truque da
vez, talvez na esperança de me levantar e bradar aos quatro cantos do planeta
que sim, eu sei como funciona a válvula de escape, frustrando assim uma fuga em
curso. Nunca obtenho, no entanto, sucesso em minhas empreitadas desse estilo. Eles,
os ilusionistas, se movem com destreza, fazem mesmo os truques mais previsíveis
tornarem-se difíceis de captar com os olhos.
Confesso que minha admiração tem nela
encrustada um quê de masoquismo. Eu, como mero humano patético, me afundo em
frustração ao não conseguir acompanhar os floreios desses tipos sobre-humanos.
É um processo de erros repetidos em que eu nunca pareço aprender que só há uma
atitude certa. Teimoso, não convencido por todas as falhas anteriores, assisto
a um truque como um aluno aplicado, confiante de que, dessa vez, tudo será
diferente, dessa vez conseguirei não ser passado para trás. Por um instante, e
é este, geralmente, o instante que vem imediatamente antes de o truque se
concretizar, atinge-me a certeza absoluta do sucesso. Penso comigo que, finalmente,
cheguei ao mesmo patamar do ilusionista que sigo com os olhos.
Então tudo desmorona. Assisto enquanto ele
se dissolve diante de meu olhar atento, vez após vez, como um idiota que se
meteu numa briga que era fraco demais para sustentar e agora apanha sem cessar
enquanto clama por misericórdia.
É uma rotina de dor e fascínio da qual é
cada vez mais difícil fugir. Quanto mais tempo observo, mais me apego ao
ilusionista e mais me sinto ligado ao truque – mesmo sabendo, no fundo, que
sempre serei naquele universo um estrangeiro, no máximo um turista. Envolvo-me
nessa falsa rede que me prende ao que me fere e me deslumbra como o tolo que
sou. Nos momentos em que me dou conta do aperto dos laços, nesses momentos sempre
há lágrimas. Elas rolam por meu rosto e caem, como tripulantes de um navio que
naufraga saltando para fora da carcaça da embarcação antes de afundarem junto
com ela. Eu as deixo ir porque sei que haverá muitas outras. A única certeza
que possuo nisso tudo que se prova verdadeira é a de que sempre haverá lágrimas
para meus prantos.
Certa vez eu tentei fazer o que faz um
ilusionista. Dobrei dois espelhos em um ângulo milimetricamente definido,
confeccionei uma caixa preta cravada de estrelas e arranjei uma capa roxa que
tremulava no ar como nenhuma outra que eu já vislumbrara. Vesti a capa e subi na
caixa colocada entre os espelhos. Se eu quisesse estar no patamar dos
ilusionistas, pensei comigo mesmo, bastava repetir uma de suas façanhas. Talvez
eu não conseguisse acompanhar truques com os olhos, mas com certeza poderia
realizar eu mesmo um que já soubesse como funcionava.
Estendi alto nos braços as duas pontas de
minha capa e me concentrei como nunca antes na vida, mais até do que quando
tentava desvendar os movimentos alheios. Fiz uma prece silenciosa a quem quer
que guardasse os seres que desapareciam e, tentando o máximo possível fazer
minha mente entrar em foco perfeito, minimizar minhas dissonâncias internas,
baixei o pano roxo sobre mim mesmo.
A força do pensar agiu sobre minhas entranhas
e eu gritei. Ouvi então um barulho horrível e soube que tinham se estilhaçado
os dois espelhos. Observei pelo canto do olho, sem conseguir me mover, enquanto
os cacos de vidro caiam sobre meu corpo trêmulo e ainda assim firmemente fixado
àquela maldita caixa preta estrelada. Após um instante de agonia em que minhas
entranhas se contraíram devido à antecipação do impacto, senti, finalmente, a
dor.
Como era pavorosa. Uma dor profunda e real
como nenhuma outra que eu houvesse sentido antes. Senti que sangrava em
múltiplos lugares. Estava derrotado de vez, podia ouvir meu plano ridiculamente
articulado rindo do meu fracasso. As lágrimas brotaram em meio a um rosto
ensanguentado. Os canais lacrimais, claro, tinham sobrevivo à quebra da
vidraria.
Eu olhei, então, para o alto, todo sangue,
lágrimas e fracasso, e implorei. Que sumisse dali. Que não sentisse mais dor.
Que o truque falhasse, mas que, pelo menos, minha humilhação fosse dissipada.
Por favor. Por favor. Eu não tenho nada. Tire-me daqui. Se existe amor sem dor,
mostre-me o lugar onde ele se encontra.
E eu sumi. Não me pergunte como, mas, de
algum modo, sei que fui transportado para dentro de mim mesmo. Desde então
estou preso em mim. Vago, dia e noite, por meus caminhos internos, pelos vales
que o tempo todo carreguei comigo, esperando um dia deparar-me novamente com aquele
que é meu agressor e minha força vital. Esperando um dia reencontrar o
ilusionista.

