segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Sobre a arte do ilusionismo


Admiro os ilusionistas, sua capacidade de, entre outras coisas, viajar de um lugar ao outro no intervalo de um instante, desafiando os limites do espaço-tempo. Aos olhos de quem se arrisca a permanecer ao lado deles e servir-lhes de espectador, pelo menos, são seres que extrapolam a mera humanidade.
O que me cativa é a mágica dos gestos simples, a floreada encenação do desaparecer. Observo os panos tremularem ao seu redor, tento captar o jogo de espelhos, adivinhar o truque da vez, talvez na esperança de me levantar e bradar aos quatro cantos do planeta que sim, eu sei como funciona a válvula de escape, frustrando assim uma fuga em curso. Nunca obtenho, no entanto, sucesso em minhas empreitadas desse estilo. Eles, os ilusionistas, se movem com destreza, fazem mesmo os truques mais previsíveis tornarem-se difíceis de captar com os olhos.
Confesso que minha admiração tem nela encrustada um quê de masoquismo. Eu, como mero humano patético, me afundo em frustração ao não conseguir acompanhar os floreios desses tipos sobre-humanos. É um processo de erros repetidos em que eu nunca pareço aprender que só há uma atitude certa. Teimoso, não convencido por todas as falhas anteriores, assisto a um truque como um aluno aplicado, confiante de que, dessa vez, tudo será diferente, dessa vez conseguirei não ser passado para trás. Por um instante, e é este, geralmente, o instante que vem imediatamente antes de o truque se concretizar, atinge-me a certeza absoluta do sucesso. Penso comigo que, finalmente, cheguei ao mesmo patamar do ilusionista que sigo com os olhos.
Então tudo desmorona. Assisto enquanto ele se dissolve diante de meu olhar atento, vez após vez, como um idiota que se meteu numa briga que era fraco demais para sustentar e agora apanha sem cessar enquanto clama por misericórdia.
É uma rotina de dor e fascínio da qual é cada vez mais difícil fugir. Quanto mais tempo observo, mais me apego ao ilusionista e mais me sinto ligado ao truque – mesmo sabendo, no fundo, que sempre serei naquele universo um estrangeiro, no máximo um turista. Envolvo-me nessa falsa rede que me prende ao que me fere e me deslumbra como o tolo que sou. Nos momentos em que me dou conta do aperto dos laços, nesses momentos sempre há lágrimas. Elas rolam por meu rosto e caem, como tripulantes de um navio que naufraga saltando para fora da carcaça da embarcação antes de afundarem junto com ela. Eu as deixo ir porque sei que haverá muitas outras. A única certeza que possuo nisso tudo que se prova verdadeira é a de que sempre haverá lágrimas para meus prantos.
Certa vez eu tentei fazer o que faz um ilusionista. Dobrei dois espelhos em um ângulo milimetricamente definido, confeccionei uma caixa preta cravada de estrelas e arranjei uma capa roxa que tremulava no ar como nenhuma outra que eu já vislumbrara. Vesti a capa e subi na caixa colocada entre os espelhos. Se eu quisesse estar no patamar dos ilusionistas, pensei comigo mesmo, bastava repetir uma de suas façanhas. Talvez eu não conseguisse acompanhar truques com os olhos, mas com certeza poderia realizar eu mesmo um que já soubesse como funcionava.
Estendi alto nos braços as duas pontas de minha capa e me concentrei como nunca antes na vida, mais até do que quando tentava desvendar os movimentos alheios. Fiz uma prece silenciosa a quem quer que guardasse os seres que desapareciam e, tentando o máximo possível fazer minha mente entrar em foco perfeito, minimizar minhas dissonâncias internas, baixei o pano roxo sobre mim mesmo.
A força do pensar agiu sobre minhas entranhas e eu gritei. Ouvi então um barulho horrível e soube que tinham se estilhaçado os dois espelhos. Observei pelo canto do olho, sem conseguir me mover, enquanto os cacos de vidro caiam sobre meu corpo trêmulo e ainda assim firmemente fixado àquela maldita caixa preta estrelada. Após um instante de agonia em que minhas entranhas se contraíram devido à antecipação do impacto, senti, finalmente, a dor.
Como era pavorosa. Uma dor profunda e real como nenhuma outra que eu houvesse sentido antes. Senti que sangrava em múltiplos lugares. Estava derrotado de vez, podia ouvir meu plano ridiculamente articulado rindo do meu fracasso. As lágrimas brotaram em meio a um rosto ensanguentado. Os canais lacrimais, claro, tinham sobrevivo à quebra da vidraria.
Eu olhei, então, para o alto, todo sangue, lágrimas e fracasso, e implorei. Que sumisse dali. Que não sentisse mais dor. Que o truque falhasse, mas que, pelo menos, minha humilhação fosse dissipada. Por favor. Por favor. Eu não tenho nada. Tire-me daqui. Se existe amor sem dor, mostre-me o lugar onde ele se encontra.
E eu sumi. Não me pergunte como, mas, de algum modo, sei que fui transportado para dentro de mim mesmo. Desde então estou preso em mim. Vago, dia e noite, por meus caminhos internos, pelos vales que o tempo todo carreguei comigo, esperando um dia deparar-me novamente com aquele que é meu agressor e minha força vital. Esperando um dia reencontrar o ilusionista.


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