Mas há ainda vida que valha a pena ser vivida? Existe ainda solo dentro e fora de mim que não tenha sido tocado pela dor, pela insegurança, por quanto eu detesto a mim mesmo?
O ato de desaparecer é tentador mais e mais vezes a cada semana, mais vezes do que eu gostaria que fosse. Estar ali e então não estar. Este movimento para o nada me chama como se fosse a única solução para a situação emocional desprezível em que me encontro. Infelizmente é um movimento que também promete muita dor, uma dor que eu não acredito ser capaz de suportar e que ainda não é maior do que a que está aqui dentro - eu acho. Além disso, há a perspectiva de decepcionar a todos mais uma vez, uma grande e última decepção depois de incontáveis tantas.
Então eu sigo. Olho para os cantos e me agarro a memórias e momentos presentes que me proporcionem alegria, mas de uma forma ou de outra a dor os encontra e os contamina. O mal que eu faço a mim mesmo e que espirra em todos ao meu redor, a forma como eu consumo todas as minhas energias tentando encontrar algo que não doa, essas coisas fazem tudo ficar cada vez mais cinza.
E cada vez mais triste. É triste que eu não consiga aproveitar mais as coisas do mesmo jeito, que eu não consiga mais fazer felizes as tantas pessoas especiais que por algum infortúnio caíram em minha vida. Os que eu não quero desapontar. Talvez eles possam cuidar uns dos outros quando tudo tiver se tornado cinza.
O impulso de seguir ainda existe. O sorriso de um amor, o abraço firme e protetor de uma mãe, o carinho de uma irmã. O conselho brutal, mas necessário, de uma amiga. O dia, no entanto, dá lugar à noite, enquanto eu me dou conta de que não fiz nada além de revirar dentro de mim mesmo, tentando encontrar algo que valha a pena, alguma partícula que eu ainda não odeie.
Me pergunto se sou forte o bastante para aguentar a noite.
Respondo a mim mesmo que não sei, mas que, se quiser ser, eu e mim mesmo precisamos de um momento de trégua.
Deixo-me, então, abraçar por mim mesmo e choro as mágoas de dentro para fora, esperando não absorvê-las de novo, mesmo com a ciência de que inevitavelmente o farei.
Encontro um fragmento meu ainda intocado e me agarro a ele para ficar de pé, enquanto ele perde a cor e se torna cinza.