Seu nome era Ana e ela desenhava.
Vivia em um cômodo sem saídas, que se resumia a quatro paredes brancas e um piso gelado. Não havia nada ali além dela mesma e de um modesto conjunto de pincéis e tintas.
A cada dia, ela despertava e pintava uma flor sobre a tinta alva da parede.
Não sabia o porquê daquela rotina e, para falar a verdade, estava além de seu alcance questioná-la. A tarefa que cumpria todos os dias não lhe parecia imposta. Era como se sempre houvesse estado ali. As tintas, as pétalas, as curvas, essas coisas eram parte dela e ela não conhecia vida além daqueles movimentos.
Nunca houvera um momento em que ela não estivesse ali, naquele lugar, pintando flores coloridas numa parede branca, e ela não tinha porque desejar que fosse diferente.
Molhava o pincel numa tinta laranja, examinava as cerdas embebidas pela cor viva, e, com movimentos sutis, traçava linhas onde antes houvera o vazio. As linhas mesclavam-se e surgia uma flor um tanto quanto parecida com a que ela desenhara no dia anterior, e ainda assim totalmente diferente.
Após admirar sua criação, ela limpava os pincéis, deitava-se no gélido chão e assim permanecia até adormecer.
Não se alimentava, não usava o banheiro, e teria ficado confusa diante de tais termos, pois não os conhecia e nem as necessidades que tinham o resto dos seres humanos associado a eles.
Um dia, no entanto, Ana acordou e viu que não estava mais sozinha. Havia, um pouco afastado dela, um homem deitado perto de outro kit de pintura.
A garota analisou-o por alguns instantes. Dentro dela pulsava algo que, se soubesse nomear, teria chamado de estranhamento.
Apesar do tal algo, ela se voltou aos próprios pertences, tomou o pincel em mãos e o mergulhou em tinta carmim.
Ana gostaria de perguntar ao homem de onde ele tinha vindo, quem ele era, como se chamava, mas articular palavras também era uma coisa que estava além de suas limitadas capacidades. Por isso ela desenhou uma flor, e se esforçou para que esta fosse o mais padronizada possível.
O homem chamava-se Paulo. Ela não se lembrava como, mas de repente sabia daquilo. Uma hora a informação não estava ali, e na outra já estava. Simples assim. Sem necessidade de questionamentos.
Algumas flores depois, Paulo era parte da rotina. Ana tinha conseguido assimilá-lo, e não se lembrava de um momento em que ele não houvesse estado ali. Eles não trocavam palavras, claro. Vez ou outra um olhar era disparado de um dos lados, mas nada daquilo tinha muito significado.
Ambos acordavam, pintavam as respectivas flores e se deitavam novamente.
Em seguida vieram Maria, Ricardo, Amélia, Tiago, Fernando, Bruna, Amanda, Cristina, Felipe, José, e uma infinidade de nomes que não vale a pena mencionar mas que eram, de alguma forma, todos do conhecimento da menina que havia sido a primeira a pousar naquele lugar. Era como se tivessem estado ali o tempo inteiro.
Ana acordou e havia várias partes de corpos alheios em contato com o seu próprio. Levantou-se e buscou o pincel e as tintas em meio à bagunça humana que era aquele cômodo. Quando finalmente os encontrou, molhou o pincel em tinta preta. Estava no centro do cômodo, longe da parede, à qual lançou um olhar determinado.
Conforme pôs-se a andar, os conterrâneos despertaram, levantaram-se e umedeceram seus pincéis. Ana virou à esquerda para se livrar de Felipe, mas lá estava Joana, outra barreira humana à sua travessia. Mais e mais pessoas estavam de pé a cada momento, e logo a garota se viu presa a um mar de corpos.
Tentou desvencilhar-se, olhos fixos na parede, com toda a força tentou abrir espaço, mas estava agarrada. Sentia outras peles roçando bruscamente sua própria, todos desesperados por cumprirem seu único objetivo diário, a maioria deles agarrados e sem perspectiva de conseguir.
Aquele estranhamento dentro de Ana cresceu e tornou-se desespero profundo. Ela estava aterrorizada, precisava, de alguma forma, fugir daquela situação. Olhou para cima.
Lá estava o céu azul, mas claro que ela não teria como chamá-lo assim, pois nunca o havia visto e nem conhecia aquele termo.
Ou será que conhecia?
Céu.
Subitamente a palavra brotou-lhe à mente.
A garota desafixou os olhos do céu por um momento e observou novamente os corpos que a pressionavam, voltando logo, entretanto, a encarar o que havia acima.
Então Ana deu um grito sonoro e gutural.
E o mundo inteiro fez-se em pedaços.
Caio Hoffmann