A
terra imprimia sobre meus dedos uma textura agradável conforme eu a
manuseava, preparando-me para começar a cavar.
Eu
estava agachado, os joelhos desnudos também em contato direto com o
solo, já que vestia bermudas. As copas das árvores estendiam-se
acima, lançando sobre mim sombras que se moviam conforme o vento,
através das quais passava a luz do meio-dia. Sentia-me vivo e
conectado ao planeta. Era chegada a hora.
Mergulhei
minhas mãos na terra escura e macia, enchendo-as do seu conteúdo, e
jogando o que consegui pegar para fora do perímetro que eu desejava
escavar, ou o que eu pensava que seria o perímetro. Olhei para o
pequeno punhado agora amontoado ao meu lado. A tarefa seria árdua.
Voltei a submergir meus instrumentos anatômicos de trabalho.
Espero
que não seja surpreendente o fato de que eu não tinha a mínima
ideia do que estava fazendo ali. Não sabia como tinha chegado àquela
clareira, sequer àquela floresta, não sabia se eu tinha algum tipo
de destino ou de objetivo. A única trilha de racionalidade em
funcionamento no meu cérebro mandava-me cavar um buraco na terra, do
tamanho que me aprouvesse.
Poderia
ser uma piscina, eu pensava enquanto cavava. Eu gostava da água. Era
perfeitamente capaz de me imaginar ali, boiando, no meio daquela
clareira, conectado à terra. Claro que movimentos complicados de
natação sempre me foram impossíveis de executar, mas não seria
uma piscina funda. Seria solitário, no entanto, aproveitar uma
piscina no meio do nada. Inicialmente me traria a calma, mas depois
com certeza a agonia. Não seria possível, claro, trazer alguém
para compartilhar de minha construção. Àquela altura, não
conseguia me lembrar se eu tinha pessoas além de mim mesmo em minha
vida, mas se tivesse, dificilmente essas pessoas estariam dispostas a
viajar até o meio daquele lugar isolado somente para me fazer
companhia à piscina. Mas, ao mesmo tempo, a água me era tão
apelativa…
No
próximo momento, era como se eu pudesse vê-la, a piscina. Eu estava
no meio dela, mas a água batia somente nas minhas canelas. Conseguia
sentir, no entanto, um rastro molhado em meu corpo. Notei em minha
pele duas linhas úmidas, que terminavam nas canelas, ao nível da
água, e fui acompanhando seu rastro por meu corpo, subindo pelas
coxas, passando pela virilha, o tronco, até que -
Lágrimas.
Definitivamente
não seria uma piscina.
Continuei
a cavar, o ritmo o mais próximo de constante que eu conseguia
manter.
As
sombras das copas acima balançavam, o vento passava por mim e eu
podia sentir o sol se deslocando, aproximando-se do horizonte. Já
era quase noite. O buraco começava a tomar forma. Eu me empenhava em
fazer o maior perímetro possível.
Talvez,
novamente cogitei, eu construiria aqui a base de uma casa. Faria um
perímetro de fato enorme, e sobre a base que viria dele edificaria
meu lar. Nesse caso, acredito que as supostas pessoas que existem em
minha vida estariam mais dispostas a compartilhar do espaço comigo,
a virem se juntarem a mim. Uma casa oferecia mais segurança e
aumentava as chances de uma vida compartilhada. Poderia eu, todavia,
mantê-la?
No
momento seguinte, fruto de minha hipótese, casa estava ali, e eu
estava nela. Meu semblante, entretanto não era de felicidade. Eu
abria a porta e corria. Vi, então, das janelas brotarem labaredas.
Eu não conseguia determinar a origem específica do fogo, mas sabia
que eu o tinha causado. Um descuido qualquer, aposto. Um pequeno
descuido com consequências desastrosas. Ouvi gritos humanamente
guturais subirem ao céu com as chamas que levariam embora, num
futuro hipotético, a minha estabilidade.
Não
uma casa. Com certeza não. Nem um perímetro muito grande. Aliás,
aquela largura estava boa.
Era
noite àquela altura. O vento continuava a soprar, mas as sombras
haviam engulido a maior parte da luz. A lua não era visível no céu,
mas eu enxergava a terra. Mesmo no escuro, conseguia sem dificuldade
acompanhar com a visão o andamento do meu trabalho.
Não
cessava de cavar, nem por um momento, almejando sempre a constância
absoluta.
Por
um momento, enquanto olhava para a terra, pensei que poderia erguer,
nos moldes daquele buraco, um muro. Eu ficaria, assim, livre do peso
de causar algum dano à vida alheia, e as pessoas hipotéticas da
minha vida estariam livres de suas obrigações morais para comigo.
Liberdade. Isolamento das minhas aflições. Era a melhor opção,
racionalmente, e podia já imaginar o muro estendendo-se a partir
daquela fenda na terra.
Eu
batia nas paredes. Gritava. Lágrimas. Dor. A razão machucava. Eu
era livre do meu lado do muro, mas a liberdade me matava aos poucos.
A segurança do muro lançava sobre mim a limitação de não poder
correr riscos. Eu estava isolado dentro da minha própria
racionalidade.
O
muro se fora e eu estava novamente cavando. Decidi, portanto, que não
poderia de maneira alguma um muro ser o resultado daquela escavação.
A extensão, portanto, não poderia ser maior do que a que eu já
tinha atingido.
Era
já madrugada.
Verifiquei
a profundidade. Não gostaria de cavar mais que aquilo. Levantei-me.
Eu
tinha terminado.
Mas
de que serviria aquele maldito buraco? Todas as possibilidades que eu
fora capaz de conceber terminavam em desgraça. Teria sido todo
aquele trabalho, então, para construir a armadilha do meu próprio
desespero?
Eu
estava perdido.
Até
que o planeta falou comigo.
Ouvi
uma voz vinda de todas as direções, que pulsava, inclusive, dentro
de mim. Era a voz do mundo, o alento do centro da Terra. Era suave,
penetrante, fria e calma. E se dirigia diretamente a mim.
Não
temas, garoto. Tu não precisas de nada disso. Não é necessária
uma piscina para abrigar tua solidão, uma casa para ser o palco de
tua ruína, ou um muro que te isole do bem e do mal. Tudo o que é
preciso e tudo de que tu necessitas é a terra. O garoto e a terra, a
terra e o garoto. A terra te entenderá. A terra enxugará tuas
lágrimas, apaziguará teu desespero. A terra será teu conforto nos
dias de ruína, salvando-te do caos. A terra te protegerá de ti
mesmo, naqueles momentos em que tu pensares estar se protegendo mas
só estiver incutindo a ti mesmo o mal. Então deita, garoto, deita
sobre a terra macia e escura e sente seu conforto. Deita sobre a
terra e nada mais será necessário para que tu alcances a paz de
espírito que desejas a cada respirar.
Eu
escutei, assim, a voz do planeta. Virei-me e me deitei de costas no
buraco que eu tinha cavado. O tamanho era surpreendentemente preciso.
Eu cabia perfeitamente.
Senti
a maciez da terra me tocar em pontos inúmeros, e já naquele
instante eu soube.
É
ali que eu deveria estar, ali é o lugar em que eu deveria ter estado
o tempo inteiro.
Eu
e a terra.
A
terra e eu.
Eu
fechei os olhos e deixei a vida me enterrar.
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