sexta-feira, 25 de março de 2016

A terra te entenderá



A terra imprimia sobre meus dedos uma textura agradável conforme eu a manuseava, preparando-me para começar a cavar.
Eu estava agachado, os joelhos desnudos também em contato direto com o solo, já que vestia bermudas. As copas das árvores estendiam-se acima, lançando sobre mim sombras que se moviam conforme o vento, através das quais passava a luz do meio-dia. Sentia-me vivo e conectado ao planeta. Era chegada a hora.
Mergulhei minhas mãos na terra escura e macia, enchendo-as do seu conteúdo, e jogando o que consegui pegar para fora do perímetro que eu desejava escavar, ou o que eu pensava que seria o perímetro. Olhei para o pequeno punhado agora amontoado ao meu lado. A tarefa seria árdua. Voltei a submergir meus instrumentos anatômicos de trabalho.
Espero que não seja surpreendente o fato de que eu não tinha a mínima ideia do que estava fazendo ali. Não sabia como tinha chegado àquela clareira, sequer àquela floresta, não sabia se eu tinha algum tipo de destino ou de objetivo. A única trilha de racionalidade em funcionamento no meu cérebro mandava-me cavar um buraco na terra, do tamanho que me aprouvesse.
Poderia ser uma piscina, eu pensava enquanto cavava. Eu gostava da água. Era perfeitamente capaz de me imaginar ali, boiando, no meio daquela clareira, conectado à terra. Claro que movimentos complicados de natação sempre me foram impossíveis de executar, mas não seria uma piscina funda. Seria solitário, no entanto, aproveitar uma piscina no meio do nada. Inicialmente me traria a calma, mas depois com certeza a agonia. Não seria possível, claro, trazer alguém para compartilhar de minha construção. Àquela altura, não conseguia me lembrar se eu tinha pessoas além de mim mesmo em minha vida, mas se tivesse, dificilmente essas pessoas estariam dispostas a viajar até o meio daquele lugar isolado somente para me fazer companhia à piscina. Mas, ao mesmo tempo, a água me era tão apelativa…
No próximo momento, era como se eu pudesse vê-la, a piscina. Eu estava no meio dela, mas a água batia somente nas minhas canelas. Conseguia sentir, no entanto, um rastro molhado em meu corpo. Notei em minha pele duas linhas úmidas, que terminavam nas canelas, ao nível da água, e fui acompanhando seu rastro por meu corpo, subindo pelas coxas, passando pela virilha, o tronco, até que -
Lágrimas.
Definitivamente não seria uma piscina.
Continuei a cavar, o ritmo o mais próximo de constante que eu conseguia manter.
As sombras das copas acima balançavam, o vento passava por mim e eu podia sentir o sol se deslocando, aproximando-se do horizonte. Já era quase noite. O buraco começava a tomar forma. Eu me empenhava em fazer o maior perímetro possível.
Talvez, novamente cogitei, eu construiria aqui a base de uma casa. Faria um perímetro de fato enorme, e sobre a base que viria dele edificaria meu lar. Nesse caso, acredito que as supostas pessoas que existem em minha vida estariam mais dispostas a compartilhar do espaço comigo, a virem se juntarem a mim. Uma casa oferecia mais segurança e aumentava as chances de uma vida compartilhada. Poderia eu, todavia, mantê-la?
No momento seguinte, fruto de minha hipótese, casa estava ali, e eu estava nela. Meu semblante, entretanto não era de felicidade. Eu abria a porta e corria. Vi, então, das janelas brotarem labaredas. Eu não conseguia determinar a origem específica do fogo, mas sabia que eu o tinha causado. Um descuido qualquer, aposto. Um pequeno descuido com consequências desastrosas. Ouvi gritos humanamente guturais subirem ao céu com as chamas que levariam embora, num futuro hipotético, a minha estabilidade.
Não uma casa. Com certeza não. Nem um perímetro muito grande. Aliás, aquela largura estava boa.
Era noite àquela altura. O vento continuava a soprar, mas as sombras haviam engulido a maior parte da luz. A lua não era visível no céu, mas eu enxergava a terra. Mesmo no escuro, conseguia sem dificuldade acompanhar com a visão o andamento do meu trabalho.
Não cessava de cavar, nem por um momento, almejando sempre a constância absoluta.
Por um momento, enquanto olhava para a terra, pensei que poderia erguer, nos moldes daquele buraco, um muro. Eu ficaria, assim, livre do peso de causar algum dano à vida alheia, e as pessoas hipotéticas da minha vida estariam livres de suas obrigações morais para comigo. Liberdade. Isolamento das minhas aflições. Era a melhor opção, racionalmente, e podia já imaginar o muro estendendo-se a partir daquela fenda na terra.
Eu batia nas paredes. Gritava. Lágrimas. Dor. A razão machucava. Eu era livre do meu lado do muro, mas a liberdade me matava aos poucos. A segurança do muro lançava sobre mim a limitação de não poder correr riscos. Eu estava isolado dentro da minha própria racionalidade.
O muro se fora e eu estava novamente cavando. Decidi, portanto, que não poderia de maneira alguma um muro ser o resultado daquela escavação. A extensão, portanto, não poderia ser maior do que a que eu já tinha atingido.
Era já madrugada.
Verifiquei a profundidade. Não gostaria de cavar mais que aquilo. Levantei-me.
Eu tinha terminado.
Mas de que serviria aquele maldito buraco? Todas as possibilidades que eu fora capaz de conceber terminavam em desgraça. Teria sido todo aquele trabalho, então, para construir a armadilha do meu próprio desespero?
Eu estava perdido.
Até que o planeta falou comigo.
Ouvi uma voz vinda de todas as direções, que pulsava, inclusive, dentro de mim. Era a voz do mundo, o alento do centro da Terra. Era suave, penetrante, fria e calma. E se dirigia diretamente a mim.
Não temas, garoto. Tu não precisas de nada disso. Não é necessária uma piscina para abrigar tua solidão, uma casa para ser o palco de tua ruína, ou um muro que te isole do bem e do mal. Tudo o que é preciso e tudo de que tu necessitas é a terra. O garoto e a terra, a terra e o garoto. A terra te entenderá. A terra enxugará tuas lágrimas, apaziguará teu desespero. A terra será teu conforto nos dias de ruína, salvando-te do caos. A terra te protegerá de ti mesmo, naqueles momentos em que tu pensares estar se protegendo mas só estiver incutindo a ti mesmo o mal. Então deita, garoto, deita sobre a terra macia e escura e sente seu conforto. Deita sobre a terra e nada mais será necessário para que tu alcances a paz de espírito que desejas a cada respirar.
Eu escutei, assim, a voz do planeta. Virei-me e me deitei de costas no buraco que eu tinha cavado. O tamanho era surpreendentemente preciso. Eu cabia perfeitamente.
Senti a maciez da terra me tocar em pontos inúmeros, e já naquele instante eu soube.
É ali que eu deveria estar, ali é o lugar em que eu deveria ter estado o tempo inteiro.
Eu e a terra.
A terra e eu.
Eu fechei os olhos e deixei a vida me enterrar.

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