domingo, 6 de maio de 2018

translucidez


entre todas as pessoas do mundo, ele encontrou a si mesmo. não sabia o que fazer com aquela outra carcaça.
olhava pra fora e pra dentro ao mesmo tempo e tinha medo. sabia os quês e estava descobrindo os comos, mas seu medo era que os comos viessem a destruí-lo.
a força que exigia pôr em prática um estilo de vida ele achava que vinha de outro lugar, porque não podia exisitir neste universo.
andou e olhou, pra fora e pra dentro, seguiu as trilhas de sangue da alma – nunca antes tinha visto sangue de cor nenhuma – e agora enxergava tudo. todas as noites, lia para si em voz alta as mesmas constatações, mas elas pareciam pertencer tanto ao papel, aos lábios, ao som da voz. a vida nunca as tinha reclamado pra si. achava que o que devia ser feito era uma conquista da vida pelas palavras. não que fosse possível, mas o que
mas o possível é sem graça e o impossível tem uma graça triste.
um humor ácido. que corrói e transforma.
ele quebrou o próprio corpo e não sabia o que fazer com aquela outra carcaça quebrada.
ele se corroeu
ele aguardava
impacientemente
forças de outros universos
que talvez demandassem paciência.

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