Olhei para o solo através do mesmo olhar
de semanas atrás. Dessa vez, no entanto, a ocasião era diferente, pois eu
estava ali para colher, não para plantar.
Não
havia jeito de saber com certeza que era chegada a hora, mas a ponta de alguma
coisa aparecia já na terra úmida a uma altura que eu sentia ser suficiente.
Sim, eu sentia e assim sabia. Pelo menos era desse modo que deveria ser feito
segundo a receita que minha mãe me passara. Portanto, por mais que eu nunca
tivesse sabido confiar nos meus sentimentos, era isso o que eu tinha que fazer
agora. E eu sentia que já era a hora.
A
coisa que se projetava para fora do solo era iluminada pelo sol forte do meio
dia, sol este que também me castigava as costas. Curvei-me e me agachei para
pegar aquela protuberância. Era frio ao toque, o produto do meu trabalho.
Puxei. Nem um movimento. Mais forte. E ainda nada. Peguei a coisa com as duas
mãos. Puxei. Ela saiu mais um pouco da terra, revolvendo o marrom úmido durante
seu percurso. Respirei. Puxei. Respirei.
Como
era difícil aquela merda. Fiz força por cerca de meia hora antes que ficasse
visível todo um braço para fora da terra. Eu já suava bastante àquela altura.
Também, pudera. Nunca tinha colhido nada na vida. Para tudo existe uma primeira
vez – ou pelo menos para tudo que se coloca no nosso caminho.
Eu
plantara aquilo nesse solo fértil porque se havia colocado diante de mim a
necessidade. Ela bateu em minha porta, num dia chuvoso, encharcada, com olhos
de quem dizia que chegara a hora de fazer algo que eu não sabia que deveria
fazer até olhá-los. E eu soube. Como se nunca estivesse estado ali e então
sempre estivesse estado.
Corri
para folhear os antigos livros manuscritos que meus pais usaram e
complementaram com suas próprias anotações em tempos outros, procurando pela
página que me ajudaria naquela tarefa específica. As instruções eram bem vagas,
como todas as que te dão depois de certa idade. Grande parte do processo eu tive
que deduzir, que sentir. Como eu odiava aquilo de ter meus próprios sentimentos
como guia. Segui em frente, todavia. Pus o livro debaixo de um braço, a
necessidade debaixo do outro, e vim até esse lugar que dizem ter o solo fértil
para quem quer plantar tempos novos.
Limpei
o suor da testa e puxei mais um pouco. Aquela parte seria difícil. Meu pai
dizia que não era força e sim jeito, mas eu nunca tive paciência e ele também
não. Não sei de onde vinha esse conselho descabido, aliás, saído da boca de
quem nunca soube a justa medida de nada. Reuni toda a força e todo jeito que
pensava ter e puxei. A cabeça pulou para fora da terra de um jeito quase
cômico. Aproveitei o impulso e comecei a descobrir o tronco, bem mais
fortalecido que o meu próprio. Quando já havia alguma parte dele para fora,
pude passar meus braços à sua volta e puxá-lo com força. O resto do tronco e as
pernas saíram numa velocidade grande com alguns puxões e logo fomos nós dois
arremessados na terra.
Aquele
fim um pouco mais súbito do que eu esperava me pegou de surpresa, mas aos
poucos se assentou em mim o sentimento de que tinha acabado. Abracei a coisa
que eu tirara da terra e comecei a chorar como nunca chorara na vida. Então me
levantei e olhei para o corpo estirado no solo. Era o meu corpo, só que diferente.
Mais resistente. Além disso, estava cheio da terra de onde estava enterrado,
milhares de pontos que haviam grudado nele enquanto eu o tirava de lá. Olhei
para o meu rosto recém-saído da terra. Esperava que ele pudesse olhar o mundo e
saber o que via, diferente de mim.
Minha
mãe tinha adquirido para si a habilidade de se desenterrar do chão todas as
manhãs. Tinha força sobre-humana. Meu pai tinha desenvolvido a técnica de ir
chorar por cima de si mesmo durante a madrugada, para que ninguém pudesse
vê-lo. Eu não seguia aquela técnica, chorando sempre à vista de todos e me
expondo sempre ao ridículo. Não conseguia fazer de outra forma. Meus avós
conseguiram estabelecer diretrizes poucas para ler os sentimentos e saber
quando era hora de colher. Alguém que eu não conseguira identificar adicionara,
em caligrafia difícil de ler, a dica de puxar o tronco para que o corpo saísse
mais depressa. Todas aquelas pessoas trabalharam duro e comprimiram os resultados
de seus esforços numa página daquele livro que me foi passado e que, mesmo sendo
produto de tanto suor, fora-me de utilidade pequena para a tarefa de me plantar
e me colher quando tal necessidade apareceu.
Mesmo
assim, eu consegui. Contrariando todos os agouros, todos eles maus, triunfei. Deixei
a vida me enterrar e então me pus para fora da terra, um novo corpo melhorado
para encarar aquilo que antes eu não estava pronto para ter diante de mim. Aquele
sim era um momento para que eu sentisse orgulho de mim mesmo. E eu senti.
Senti
orgulho e deixei – dessa vez sem culpa ou ódio – que aquele sentimento me
guiasse para dentro do corpo que eu tinha cultivado com tanto esforço, na
esperança de dias melhores ou pelo menos reações melhores a dias tão ruins
quanto os anteriores.
Aquele
novo corpo falharia, é claro, em algum momento. Mas então a necessidade bateria
de novo à minha porta e eu já saberia o que fazer, tendo por guias meu coração
e minha própria experiência, além do conhecimento deixado para mim por todos
aqueles que tentaram antes cultivar um corpo à altura de seu espírito.

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