quarta-feira, 11 de outubro de 2017

4. Descreva uma técnica familiar de agricultura


Olhei para o solo através do mesmo olhar de semanas atrás. Dessa vez, no entanto, a ocasião era diferente, pois eu estava ali para colher, não para plantar.
            Não havia jeito de saber com certeza que era chegada a hora, mas a ponta de alguma coisa aparecia já na terra úmida a uma altura que eu sentia ser suficiente. Sim, eu sentia e assim sabia. Pelo menos era desse modo que deveria ser feito segundo a receita que minha mãe me passara. Portanto, por mais que eu nunca tivesse sabido confiar nos meus sentimentos, era isso o que eu tinha que fazer agora. E eu sentia que já era a hora.
            A coisa que se projetava para fora do solo era iluminada pelo sol forte do meio dia, sol este que também me castigava as costas. Curvei-me e me agachei para pegar aquela protuberância. Era frio ao toque, o produto do meu trabalho. Puxei. Nem um movimento. Mais forte. E ainda nada. Peguei a coisa com as duas mãos. Puxei. Ela saiu mais um pouco da terra, revolvendo o marrom úmido durante seu percurso. Respirei. Puxei. Respirei.
            Como era difícil aquela merda. Fiz força por cerca de meia hora antes que ficasse visível todo um braço para fora da terra. Eu já suava bastante àquela altura. Também, pudera. Nunca tinha colhido nada na vida. Para tudo existe uma primeira vez – ou pelo menos para tudo que se coloca no nosso caminho.
            Eu plantara aquilo nesse solo fértil porque se havia colocado diante de mim a necessidade. Ela bateu em minha porta, num dia chuvoso, encharcada, com olhos de quem dizia que chegara a hora de fazer algo que eu não sabia que deveria fazer até olhá-los. E eu soube. Como se nunca estivesse estado ali e então sempre estivesse estado.
            Corri para folhear os antigos livros manuscritos que meus pais usaram e complementaram com suas próprias anotações em tempos outros, procurando pela página que me ajudaria naquela tarefa específica. As instruções eram bem vagas, como todas as que te dão depois de certa idade. Grande parte do processo eu tive que deduzir, que sentir. Como eu odiava aquilo de ter meus próprios sentimentos como guia. Segui em frente, todavia. Pus o livro debaixo de um braço, a necessidade debaixo do outro, e vim até esse lugar que dizem ter o solo fértil para quem quer plantar tempos novos.
            Limpei o suor da testa e puxei mais um pouco. Aquela parte seria difícil. Meu pai dizia que não era força e sim jeito, mas eu nunca tive paciência e ele também não. Não sei de onde vinha esse conselho descabido, aliás, saído da boca de quem nunca soube a justa medida de nada. Reuni toda a força e todo jeito que pensava ter e puxei. A cabeça pulou para fora da terra de um jeito quase cômico. Aproveitei o impulso e comecei a descobrir o tronco, bem mais fortalecido que o meu próprio. Quando já havia alguma parte dele para fora, pude passar meus braços à sua volta e puxá-lo com força. O resto do tronco e as pernas saíram numa velocidade grande com alguns puxões e logo fomos nós dois arremessados na terra.
            Aquele fim um pouco mais súbito do que eu esperava me pegou de surpresa, mas aos poucos se assentou em mim o sentimento de que tinha acabado. Abracei a coisa que eu tirara da terra e comecei a chorar como nunca chorara na vida. Então me levantei e olhei para o corpo estirado no solo. Era o meu corpo, só que diferente. Mais resistente. Além disso, estava cheio da terra de onde estava enterrado, milhares de pontos que haviam grudado nele enquanto eu o tirava de lá. Olhei para o meu rosto recém-saído da terra. Esperava que ele pudesse olhar o mundo e saber o que via, diferente de mim.
            Minha mãe tinha adquirido para si a habilidade de se desenterrar do chão todas as manhãs. Tinha força sobre-humana. Meu pai tinha desenvolvido a técnica de ir chorar por cima de si mesmo durante a madrugada, para que ninguém pudesse vê-lo. Eu não seguia aquela técnica, chorando sempre à vista de todos e me expondo sempre ao ridículo. Não conseguia fazer de outra forma. Meus avós conseguiram estabelecer diretrizes poucas para ler os sentimentos e saber quando era hora de colher. Alguém que eu não conseguira identificar adicionara, em caligrafia difícil de ler, a dica de puxar o tronco para que o corpo saísse mais depressa. Todas aquelas pessoas trabalharam duro e comprimiram os resultados de seus esforços numa página daquele livro que me foi passado e que, mesmo sendo produto de tanto suor, fora-me de utilidade pequena para a tarefa de me plantar e me colher quando tal necessidade apareceu.
            Mesmo assim, eu consegui. Contrariando todos os agouros, todos eles maus, triunfei. Deixei a vida me enterrar e então me pus para fora da terra, um novo corpo melhorado para encarar aquilo que antes eu não estava pronto para ter diante de mim. Aquele sim era um momento para que eu sentisse orgulho de mim mesmo. E eu senti.
            Senti orgulho e deixei – dessa vez sem culpa ou ódio – que aquele sentimento me guiasse para dentro do corpo que eu tinha cultivado com tanto esforço, na esperança de dias melhores ou pelo menos reações melhores a dias tão ruins quanto os anteriores.
            Aquele novo corpo falharia, é claro, em algum momento. Mas então a necessidade bateria de novo à minha porta e eu já saberia o que fazer, tendo por guias meu coração e minha própria experiência, além do conhecimento deixado para mim por todos aqueles que tentaram antes cultivar um corpo à altura de seu espírito.

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