quinta-feira, 8 de maio de 2014

O Primeiro de Muitos


I

- Preciso te dizer uma coisa. - confessou a garota.

Aquela simples frase sussurrada ao vento quebrou o clima tranquilo que os dois vivenciavam naquela tarde de sábado.

Estavam deitados na grama, um ao lado do outro, observando as delicadas nuvens emolduradas no céu azul e sentindo o vento que passava por entre seus corpos estendidos, tentando encontrar o caminho para continuar sua jornada sem fim pelo mundo.

Ela não queria estragar aquele momento, mas precisava. Simplesmente não iria conseguir ficar mais um minuto sequer ao lado daquele rapaz sem contar-lhe o que há tanto vinha escondendo a duras penas.
Ele virou seu rosto em direção ao dela, e seus olhares se conectaram. Ele demorou um instante para assimilar a frase, mas em seguida assentiu. Ergueu seu tronco da grama, e assim ela também fez, de modo que ficaram sentados frente a frente na imensidão verdejante onde se encontravam.

Ela ficou em silêncio por um momento. Tinha lhe custado tanto levantar o assunto, e agora não sabia se queria prosseguir com aquela revelação. Talvez, se ela o encarasse por muito tempo, ele se esquecesse de que ela deveria dizer algo.

- Diga logo, Ana! – implorou ele, pousando sua mão esquerda sobre a coxa esquerda dela. – Você sabe como sou curioso!

Ana reuniu toda coragem que existia nos cantos mais longínquos de seu ser, e rompeu a inércia que a insegurança lhe impunha.

- Eu... – ela engoliu em seco – Olha, Tiago, eu não posso mais esconder isso de você. Eu juro que eu não queria ter essa conversa, mas já não consigo suportar o peso do silêncio. Toda vez que você está por perto, toda vez que me toca, toda vez que eu penso em você, eu sinto uma coisa muito estranha. Eu nunca senti isso por ninguém, nem sabia que existia uma sensação tão profunda, para ser sincera. É uma coisa tão boa, tão... Ah, não sei. Não sei descrever. Eu sei que você me faz bem como ninguém nunca me fez.

Ela parou por um momento, e analisou a reação dele. Seu rosto parecia continuar impassível. Ele olhava fixamente para ela, inexpressivo. E ela se arrependeu daquilo tudo. Soube que tinha perdido um amigo. Sentiu uma lágrima escorrer por seu rosto. Por que fui tão tola de achar que ele sentiria o mesmo?

- Eu não queria que fosse assim, Tiago! Não queria. Mas não foi algo que eu escolhi sentir. Simplesmente aconteceu. Eu sei que somos só amigos, sei que não deveria estar dizendo nada disso, mas eu não iria suportar. Se você não me quiser mais por perto, se você estiver me odiando agora, eu vou entender. Mas eu precisava dizer isso tudo. Eu te amo, Tiago.

Ela esperou que ele começasse a gritar, que a xingasse, que lhe perguntasse que tipo de pessoa era ela, que não conseguia manter uma relação de amizade com alguém do sexo oposto sem ansiar por algo mais. Mas ele não fez nada disso. Tiago sorriu.

- Eu nem sei o que dizer, Ana. – ele falou, e sua voz estava carregada de emoção – A verdade é que, durante todo esse dia maravilhoso que estamos tendo, eu venho procurando uma forma de te dizer o que você acabou de me contar. O que eu sinto por você vai além do amor. Não há palavra na nossa língua que descreva essa sensação. Você é simplesmente a personificação da minha definição de perfeito. Eu não só te quero por perto de mim. Quero minha alma junto da sua, para sempre.

O beijo foi tão natural, tão instintivo, que quando eles perceberam já estava acontecendo. Ela pulou sobre ele, e os dois caíram na grama, mas não pararam de se beijar. Não queriam parar. Nunca. A partir daquele instante, não poderiam mais existir separados. Suas almas tinham se unido.

Aquele beijo seria o primeiro de muitos que ainda estavam por vir.

II

- Eu ganhei! Eu ganhei! – Marcos gritava a plenos pulmões ao ultrapassar a linha de chegada improvisada, feita de chinelos.

O garoto parou e estendeu os braços para o céu, comemorando, só para ser derrubado no chão pelo amigo logo em seguida. Caíram os dois na grama, rindo.

Marcos olhou para o amigo, e percebeu que Lucas o estava olhando daquele jeito estranho outra vez.
- Preciso te dizer uma coisa. – falou Lucas, ainda ofegante da corrida.

Marcos franziu a testa, percebendo o jeito inquieto do amigo.

- O que foi, cara? Aconteceu alguma coisa?

Lucas tentou parar de tremer, mas não conseguiu. Suas frases seguintes iriam definir o futuro da amizade dos dois. Ele tem que entender. Ele vai entender.

- Marcos, o que eu vou te dizer é muito complicado, mas só te peço calma e compreensão. Eu não queria estar tendo essa conversa, mas infelizmente não posso mais continuar sofrendo desse jeito. A verdade é que eu sinto algo por você. Algo que vai além da amizade. Quando você está por perto, eu fico nervoso, inseguro. Quando você sorri para mim, ah... Eu quase derreto por dentro. Eu sei que isso é bizarro, sei que é errado. Mas é algo que eu não consigo controlar. Nunca senti isso por nenhum cara antes. Eu não espero que você sinta o mesmo, sei que não, mas eu precisava te dizer. Não aguentava mais esconder isso de você. Não aguentava mais agir estranho quando perto de você, e não poder dar nenhuma explicação.

Marcos não disse nada. Só continuou a encarar o amigo, impassível. Será que isso é o que as pessoas chamavam de estado de choque? , Lucas se perguntou.

- Apesar de tudo isso, tenho certeza de que se você me entender e for paciente comigo, podemos continuar a ser bons amigos. – Lucas continuou, diante do silêncio do outro. – Eu sei controlar o que sinto. Só não quero perder sua amizade, nem sofrer como estava sofrendo: em silêncio.

Marcos continuou a encará-lo. Demorou alguns instantes, mas enfim seu rosto assumiu uma expressão. Não de compreensão, nem de confusão.

De nojo.
- Você tá brincando comigo, não é? – ele perguntou, incrédulo – Isso só pode ser uma porra de uma brincadeira!

Ele pegou Lucas pela camisa e ergueu os dois do gramado. Marcos olhou bem fundo nos olhos do amigo, perfurando-o com o mais puro ódio.

- Você. Logo você. Meu melhor amigo. A pessoa com quem eu sempre podia contar, pra todas as horas. Eu te respeitava, te admirava. Você era um exemplo de vida pra mim. Todos aqueles dias, todas aquelas noites que passamos compartilhando nossas experiências, nossos medos. Eu achava que íamos ser amigos pro resto da vida. E agora isso. Depois de todo esse tempo, eu descubro que você É A PORRA DE UM VIADINHO DE MERDA!

Ele atirou Lucas no chão, e o garoto caiu, desnorteado. Seus olhos estavam cheios de lágrimas. Acima dele, pairava um Marcos cego pela raiva.

- Calma, Marcos. Calma. Eu sei que é difícil, mas ainda podemos ser amigos. – Lucas soluçou.
O outro deu uma risada debochada.

- Amigos?! – ele berrou, apontando um dedo acusador para Lucas – Você é doente! É a escória! Pessoas como você deveriam morrer! Como posso ser amigo de alguém como você? De uma bicha? Você não merece nem estar vivo!

E ele o chutou. Lucas contraiu-se, sentindo a dor do chute e, acima de tudo, a dor das palavras. Aquele que até poucos segundos fora seu melhor amigo agora dizia que ele não era digno de vida. E talvez não seja mesmo, pensou.

- Agora levanta, seu merda.

Lucas continuou imóvel.

- LEVANTA!

Marcos agarrou-o pelos ombros e o pôs de pé. Lucas conseguiu focalizar seu rosto vermelho de raiva, desgosto, desprezo.

E só pensava: Eu mereço isso. As palavras. O pontapé. Eu sou a escória.

Ele só teve tempo de ver o punho de Marcos em movimento antes de um soco acertar-lhe o queixo. Lucas voou por um minuto, e então aterrissou na grama novamente.

- Se você vier falar comigo de novo, se ao menos me olhar outra vez, vou fazer muito pior. – Marcos ameaçou.

Dito isso, virou-se e foi embora, deixando Lucas só, estirado na grama, lamentando sua existência. O sol incidia sobre ele, refletindo a dor e a desgraça.

Aquele soco seria o primeiro de muitos que ainda estavam por vir.

Nenhum comentário:

Postar um comentário