
Cheguei ao quarto desamparado, desnorteado. De alguma forma, consegui chegar até a cama, e lá me recostei.
E só deixei rolarem as lágrimas.
Tudo ia tão bem. Bem demais, não? Naquele momento, senti-me um idiota por ter acreditado por um segundo sequer que ele havia evoluído como pessoa. Que tínhamos passado do ponto onde ele me fazia chegar àquele estado catatônico. Bom, pelo menos eu estava sozinho agora. Podia terminar de esvaziar meus dutos lacrimais em paz.
Então ele chegou.
Ouvi seus passos pesados e desordenados antes de ter coragem para encará-lo. Eu tentava conter de toda forma as lágrimas, mas elas não cessavam. Ó, Céus, por que elas não cessavam?!
Ele arrastava-se até onde eu jazia com uma calma amedrontadora. Imaginei seu cérebro enevoado tentando interpretar a cena que lhe era apresentada.
Ele chegou bem perto e parou, encarando-me. Em seu olhar, eu via todo o desprezo que ele sempre teve por mim, por quem eu era, por quem eu havia me tornado, todas essas coisas que ele sempre deixava escapar de maneira tão sutil. Agora, lá estavam elas, escancaradas em sua expressão embriagada. Tudo graças ao maravilhoso líquido louro, que opera milagres inimagináveis. Tudo graças ao maldito líquido que enchera minha vida de momentos como aquele.
E as lágrimas não cessavam.
- Para de chorar. - ele disse, firme. Firmeza essa, aliás, que nunca acompanhava seus discursos quando estava sóbrio. - Para de chorar e vira homem.
Mas as lágrimas não cessavam.
Ele olhou ainda mais fundo para mim, como se aquilo fosse possível, e parecia examinar minha alma procurando alguma razão para eu ainda estar chorando, se ele já havia me mandado parar. Afinal de contas, ele era minha autoridade suprema, a quem eu devia respeito e obediência. Porra, nem como sarcasmo essa justificativa funciona.
- Vira homem. - ele repetiu, e por um momento pensei que o álcool havia varrido de sua mente o resto do vocabulário que ele conhecia.
Então eu fiz o que tinha de ser feito, o que eu sempre fazia. Encarei-o de volta, perguntando-me se havia firmeza em meu olhar, em algum lugar atrás daquela cortina lacrimosa. Encarei-o, e cuspi a verdade nele.
- Eu tenho medo de você.
Suas mãos fecharam-se em punhos, e eu soube que o havia afetado. Claro que havia. Eu já sabia onde mirar. Ele virou-se e saiu, tropeçando, e eu novamente desabei na cama.
Assim, decidi que se tornar-me homem significava transformar-me nele, se aquilo significava atingir todos à minha volta com uma personalidade louca e explosiva e, acima de tudo, não ter arrependimentos, nem valia a pena a dor da metamorfose.
E as lágrimas não cessavam.
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