
- E você, Tiago?
O homem, que finalmente havia conseguido concentrar-se tanto na cor das ervilhas a fim de não prestar mais atenção as conversas patéticas de seus amigos, foi puxado de volta à realidade ao som de seu nome.
- Que tem eu, Clara?
- Não está prestando a mínima atenção, não é? - ela disse com uma voz ácida seguida por uma risadinha - Estamos dizendo qual a última coisa cada um de nós pensa antes de dormir, todas as noites. Eu, por exemplo, sempre penso no Francisco, como já disse.
Ela apertou a mão do namorado, que sentava ao seu lado com um sorriso exagerado no rosto, ostentando como sentia-se orgulhoso daquele relacionamento ridículo.
- E você, Tiago, no que você pensa? - Clara completou.
Tiago a encarou calmamente enquanto mastigava as últimas ervilhas.
-No que eu penso?
Ele largou os talheres no prato e respondeu, apático:
- Eu penso em como a minha vida é miserável. No quão infeliz eu sou, cercado de pessoas e situações idiotas, rodeado por um mundo superficial e construído com base em mentiras. Penso que no dia seguinte terei que acordar cedo, sendo que o que eu mais quero é dormir mais, sair de casa e trabalhar até a exaustão extrema para garantir a minha sobrevivência nessa sociedade hipócrita. E que, após essas maravilhosas horas de trabalho, vou me encontrar com vocês, queridos amigos, e durante horas fingir que participo de suas conversas entediantes. Terei que fingir que me importo com seus problemas imbecis, e concordar com o fato de que vocês são tão injustiçados e têm uma vida tão triste, e que mereciam melhor. Terei que fingir que me interessa saber que é ou deixou de ser a namorada do cara que mora do lado da sua casa, ou o que você ouviu seu chefe conversando com a secretária. Depois me despedirei, voltarei para casa, e novamente irei me deitar e pensar sobre como o meu dia foi um dia perdido, e em como o próximo também será. E eu me odeio, tenho nojo de mim. Sim, nojo. Tenho nojo de mim mesmo por suportar essa mesma vida miserável, todos os dias da minha vida, e não fazer nada a respeito a não ser remoer e lamentar. Então eu espero calmamente até o ódio e a angústia se cansarem de mim e irem embora, para que eu possa dormir e continuar passivamente minha vida de merda.
O silêncio espalhou-se pela mesa. Todos estavam com os olhos arregalados. Francisco parecia um fantasma de tão pálido. O único relaxado era Tiago, que calmamente apontou para o prato de Clara e perguntou:
- Você vai comer essas ervilhas?
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