sábado, 7 de janeiro de 2017

Breves apontamentos sobre O Bolo

Ele está logo ali, em cima da mesa. O objeto mais cobiçado por absolutamente todas as pessoas do planeta - ou assim dizem. Nós crescemos ouvindo histórias sobre ele, sobre como possuir um pedaço dele pode ser a salvação de toda uma linhagem. O Bolo está logo ali, em toda sua glória confeitada. Precisamos decidir como iremos dividi-lo.
Mais do que simplesmente pegar a faca e partir O Bolo, precisamos saber como fica a medida de cada fatia e quem terá direito a um pedaço de tão maravilhosa iguaria. Claro, como somos todos humanos, iguais em nossa dignidade intrínseca, devemos dividi-lo em quantos pedaços forem necessários para que cada pessoa tenha direito a um. Justo e simples.
Mas como assim, dirão alguns, entregar a maior riqueza que temos para todas as pessoas por igual? Quem trabalhou para dar a esse Bolo a forma que ele tem? Quem contribui para que ele cresça? Só deve ter um pedaço quem for merecedor de um. De que justiça, porém, seria isso, rebateriam outros, se uns já nasceram nos lugares onde o bolo estava sendo preparado e foram desde sempre incentivados a participar da feitura dele, enquanto outros não sabiam nem quais eram seus ingredientes, e dele nunca viram mais do que migalhas, quando muito? 
Mas, ora, essa é a lei da natureza.
E quem leu na natureza essas leis senão os próprios homens? De quem é de fato a autoria dessa lei?
Questionamentos tolos que não nos levarão a lugar algum! Já que querem dar Bolo a todos, pelo menos façamos primeiro com que ele cresça, para que todos possam ter muito, talvez dando a cada um a parte que lhe cabe segundo seu mérito.
Isso é o maior absurdo que já vi ser dito!
Parem, parem, não podemos decidir assim, numa conversa meia boca de homens quaisquer! Quem deve cuidar da distribuição do Bolo é a grande Mão Invisível, a única medida justa que há nessa Terra. A presença dela é inerente à nossa condição de seres humanos, não podemos nos organizar sem ela nem tentar submetê-la a nossos desígnios. Isso, sim, seria uma injustiça. Devemos seguir o que deseja a Mão, que tudo controla e tudo nos fornece conforme nos cabe.
Agora, isso sim é um disparate! Que Mão é essa que divide nossa maior benesse sem que ao menos possamos vê-la? E de novo essa história de inerente! Nós precisamos é de uma grande instituição que distribua as fatias do Bolo. Ela se chamará Estado e terá as ferramentas necessárias para fazer justiça com nossas riquezas.
E quanto ao que a Mão deseja? Esse tal Estado vai acabar com todos nós!
Podemos colocá-lo para atuar onde a Mão falhar. Afinal, isso deve acontecer alguma hora, tenho certeza de que já ouvi falar de algo assim acontecendo.
Canalhas! Querem sim é extorquir aqueles que trabalharam para a existência desse Bolo sem ao menos estarem cientes de que era sua força que o estava a fazer! Sei muito bem de quem é essa Mão Invisível! Sei muito bem a quem serve esse tal Estado! Precisamos é de um outro tipo de Estado, que vai tirar das mãos desses ladrões a capacidade de repartir nosso Bolo, que vai permitir que os homens gradualmente possam cuidar do bolo por si mesmos, sem precisar que nada Maior o distribua.
E como exatamente isso será feito? O poder que acabará com o próprio poder? A hierarquia desierarquizadora? Bobagem! E, além disso, assim voltaremos àquelas discussões entre homens banais às quais nos prendíamos no início de tudo, antes de termos nos tornado civilizados.
O debate poderá seguir por tempo infinto. A cada momento eclodirá mais uma ideia inédita e perfeita sobre como repartir as fatias do Bolo e quantas elas serão, só para ser derrubada no momento seguinte por uma ideia, agora sim, realmente perfeita. Isso sucederá eternamente, pois estamos todos presos à ideia de um bolo fatiado. Quem determinou que se usasse uma faca para fatiá-lo? Quem disse que a única maneira de distribui-lo é em fatias? Quem foi que criou a ideia de "distribuição" a partir de um ponto específico como a única maneira de lidar com o conteúdo do Bolo? Aliás, antes de tudo, quem deu ao Bolo o formato que tem, quem o colocou nessa fôrma e não permitiu que fossem testados outros moldes, ou molde nenhum, para o maior tesouro da humanidade?
Por que não explodimos o bolo para que suas partículas se espalhem no ar? Para que o antigo Bolo, agora pulverizado, alcance toda pessoa e todo lugar, para que todos, sim, efetivamente todos, possam pegar para si partículas dele, respirá-las, senti-las? Para que a benesse seja tudo e esteja em tudo, para que possamos usufruir dela ao lidarmos com nós mesmos e uns com os outros?
A resposta é óbvia. Não fazemos isso por termos medo. E se der tudo errado? E se entrarmos em uma sequência irreversível de catástrofes? E se descobrirmos que fizemos a maior loucura de nossas vidas e que nunca mais teremos esperança de felicidade?
Esse medo, conterrâneos, é nada mais que o triste reflexo de uma Humanidade que tem fé cega no controle e nenhuma fé na liberdade.

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