quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

primeiro socorro




se afogar talvez seja o mais próximo que alguém consiga chegar do desespero puro. sabe, toda essa água te cercando por onde quer que você olhe e tentando invadir seu corpo, isso te faz perder qualquer sensatez ou capacidade de raciocínio.
eu queria saber o nome da água pra ser capaz de chamar por ela e pedir que, por favor, fosse embora. se eu soubesse como ela se chama, eu poderia dizer, ei, você bem que podia se afastar, eu preciso de um respiro de ar puro. ei, será que você pode me deixar em paz, me dar um minuto de sossego –
mas a água não vai embora. toda essa massa que te cerca e te pressiona não vai se mexer por vontade própria. você precisa, então, pegar impulso, se mover, empurrar a água pra longe. repetir o processo até que você consiga emergir em um lugar onde seja possível respirar. esse pontapé inicial, esse impulso, talvez seja a coisa mais difícil de ser feita de todas as coisas que somos capazes de fazer. requer força que você provavelmente acredita que perdeu há muito tempo, já que está se afogando.
mas uma vez que você já fez, uma vez que sua cabeça está fora d’água e você olha pra trás, esse momento, o momento em que você tomou impulso, se torna o momento mais bonito da sua vida. e a forma como você passa a ver todas as coisas depois que sobrevive a um afogamento é também uma forma muito bonita. é como se tudo ao seu redor fosse vida a ser vivida.
não, não como algo que você nunca tinha percebido antes, mas como um relembrar. como se toda a luz que você tinha deixado de levar em conta te invadisse de uma só vez
e te iluminasse.
respire.
você controla essas águas, esqueceu? elas respondem a você.
navegue.

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